Uma Memória de Dois Mil Anos
Há monumentos que se visitam e monumentos que se sentem. O Castel Sant'Angelo pertence à segunda categoria. Este tambor maciço de travertino e tijolo que se eleva sobre o Rio Tibre não é simplesmente uma fortaleza medieval — é uma acumulação de dois mil anos de história romana, papal e humana. Começou como um mausoléu imperial. Tornou-se uma fortaleza invicta. Serviu de prisão para filósofos e artistas. Foi a última esperança dos papas em fuga. E hoje é um museu onde todas estas camadas coexistem nos mesmos corredores e salões.
Nenhum outro edifício de Roma tem uma história tão variada. O Coliseu é um anfiteatro. O Panteão é um templo. O Castel Sant'Angelo foi tudo ao mesmo tempo em momentos diferentes — e as marcas de cada uma dessas vidas estão gravadas nas suas pedras.
O Mausoléu de Adriano
A história começa por volta do ano 135 d.C., quando o Imperador Adriano mandou construir um mausoléu para si próprio e para a sua família. Durante mais de um século, o edifício guardou as cinzas de imperadores romanos, incluindo Marco Aurélio e Septímio Severo. O design original incluía um jardim no topo, estátuas por toda a superfície e uma quadriga dourada com o Imperador.
Durante as invasões bárbaras da Antiguidade Tardia, o mausoléu foi convertido num posto militar integrado nas Muralhas Aurelianas. As suas preciosas estátuas foram atiradas lá de cima sobre os Godos atacantes. Foi também nesta época que o edifício começou a ser usado como tesouro, onde os papas guardavam os seus arquivos mais preciosos e as suas reservas de ouro durante tempos de guerra.
A Lenda do Anjo
O castelo ganhou o nome atual em 590 d.C. Roma estava a ser devastada por uma terrível peste. O Papa Gregório Magno liderou uma procissão penitencial pela cidade para rezar pela salvação. Ao olhar para o mausoléu, teve uma visão do Arcanjo Miguel a embainhar a sua espada flamejante, significando que a cólera de Deus tinha sido aplacada e a peste ia terminar. Para comemorar este milagre, foi construída uma capela no cume.
Inicialmente ergueu-se ali uma estátua de mármore do anjo, substituída em 1753 pela imponente estátua de bronze de Peter Anton von Verschaffelt que vemos hoje — o anjo no momento de embainhar a espada, uma pausa de misericórdia divina que observa Roma há séculos. A estátua de mármore original do século XVI, da autoria de Raffaello da Montelupo, pode ser vista no Pátio do Anjo, desgastada por séculos de chuva e vento romanos.
O Passetto: O Corredor Secreto dos Papas
Na Idade Média, os papas reconheceram o valor estratégico desta fortaleza imponente situada a poucos passos da Basílica de São Pedro. Fortif icaram-na com baluartes e muralhas. Mas a sua adição mais inteligente foi o Passetto di Borgo («Il Passetto»): um corredor secreto elevado sobre uma muralha, ligando o Castel Sant'Angelo diretamente ao Vaticano.
Esta rota de fuga salvou a vida do Papa Clemente VII durante o traumático Saque de Roma de 1527. Enquanto as tropas amotinadas de Carlos V varriam a cidade e massacravam a Guarda Suíça nos degraus de São Pedro, o Papa fugiu pelo Passetto até à segurança do castelo. Ficou sitiado ali durante meses enquanto a cidade ardia à sua volta. O Passetto ainda é visível hoje, serpenteando pelo bairro como uma fita de pedra, embora raramente esteja aberto ao público.
Luxo e Sofrimento: Os Dois Lados do Castelo
O interior do Castel Sant'Angelo é um estudo em contrastes extremos. Os andares superiores contêm os Apartamentos Papais, ricamente decorados com frescos renascentistas. O mais famoso é a Sala Paulina (Sala de Paulo III), adornada com pinturas de trompe-l'œil que narram a história de Alexandre Magno. Estes murais, pintados por Perino del Vaga e a sua oficina, destinavam-se a demonstrar a erudição e o poder do Papa.
Os andares inferiores contam uma história diferente. O castelo serviu como a prisão mais temida pelos papas. Entre os seus reclusos mais famosos contam-se o escultor Benvenuto Cellini — que protagonizou uma fuga audaciosa descendo as muralhas com uma corda feita de lençóis —, o filósofo Giordano Bruno, mais tarde queimado na fogueira, e o charlatão Cagliostro. As masmorras escuras e húmidas eram tristemente célebres pela sua crueldade.
Este castelo é também o palco do ato final da ópera Tosca de Puccini, onde a heroína se atira das muralhas após a execução do seu amante. Para quem conhece a ópera, percorrer as ameias do castelo tem uma camada extra de intensidade.
A Girandola: Fogo Sobre o Tibre
Durante séculos, o castelo foi o centro das celebrações romanas. A mais famosa era a Girandola, um espetáculo de fogo de artifício originalmente criado por Miguel Ângelo e mais tarde aperfeiçoado por Bernini. Era realizado em dias de festa como a Páscoa e a Festa dos Santos Pedro e Paulo. Os fogos eram lançados do topo do castelo, criando uma cascata de fogo que descia pelas paredes cilíndricas, refletia no Tibre e iluminava toda a cidade. Testemunhos de viajantes do século XVIII descrevem-na como a coisa mais bela que já viram na vida.
O Terraço do Anjo
O ponto culminante de qualquer visita é a subida ao Terraço dell'Angelo. Diretamente sob as asas de bronze do Arcanjo, oferece provavelmente a melhor vista panorâmica de Roma. Daqui, está-se ao nível da cúpula de São Pedro e pode-se ver todo o centro histórico, o Tibre sinuoso e as montanhas ao longe — um local para refletir sobre as camadas de história por baixo dos pés.
Informações Práticas
- Como chegar: O castelo fica a uma curta caminhada do Vaticano ou da Piazza Navona. A estação de metro mais próxima é Lepanto (Linha A).
- A Ponte: A Ponte Sant'Angelo, que leva ao castelo, está ladeada por dez magníficas estátuas de anjos desenhadas por Gian Lorenzo Bernini. Cada anjo carrega um instrumento da Paixão de Cristo (a cruz, a coroa de espinhos, os pregos), transformando a ponte numa «Via Sacra» para os peregrinos.
- Bilhetes: Faz parte do sistema do Museu Nacional. A visita demora habitualmente uma hora e meia a duas horas. A compra antecipada é muito recomendada na época alta para evitar as longas filas que se formam ao longo do rio.
- Dica: Visite ao fim do dia para apanhar a luz dourada de entardecer sobre o Tibre — é uma das vistas mais bonitas de Roma.