A Fortaleza Flutuante do Lago de Garda
Há poucas imagens em Itália tão arrebatadoras como o Castello Scaligero de Sirmione. Situado na ponta de uma longa e estreita península que se projecta para o extremo sul do Lago de Garda, parece flutuar sobre a água turquesa. É uma obra-prima de engenharia militar medieval, um «castelo de água» no sentido mais literal da expressão: as suas muralhas emergem diretamente do lago, e o seu porto fortif icado protegia a frota dos Scaliger contra invasores e tempestades.
Durante séculos, este castelo foi a chave estratégica do controlo do Lago de Garda. Hoje é um dos castelos mais bem preservados de Itália e o portal de conto de fadas para a cidade histórica de Sirmione. Para entrar na cidade velha, toda a gente — turistas ou locais — tem de atravessar a ponte levadiça do castelo, passando sob o olhar vigilante da torre principal, tal como os viajantes faziam há 700 anos.
A Mão de Ferro dos Escaligeros
O castelo tem o nome da família Della Scala (os Escaligeros), a poderosa dinastia que governou Verona e grande parte da região do Véneto nos séculos XIII e XIV. O emblema da família — uma escada (scala em italiano) — pode ser visto esculpido na pedra por toda a fortaleza.
A construção começou por volta de 1360 por ordem de Cansignório della Scala. Sirmione era um posto fortif icado desde a época romana, mas Cansignório queria uma fortaleza de última geração para defender o seu território contra a rival família Visconti de Milão e para esmagrar quaisquer rebeliões locais. Construiu sobre as fortif icações romanas e medievais pré-existentes, criando o complexo que vemos hoje. O castelo servia não só como defesa, mas também como posto de cobrança de portagem para as lucrativas rotas comerciais no lago.
O domínio dos Escaligeros terminou em 1387, quando os Visconti tomaram o castelo. Passou depois para a República de Veneza em 1405. Os Venezianos, mestres do mar, reconheceram a importância do porto do castelo e expandiram a doca coberta (darsena). À medida que a tecnologia militar evoluiu e o foco estratégico se deslocou, o castelo foi perdendo importância, tornando-se uma simples guarnição antes de ser reconhecido como monumento nacional na era moderna.
Arquitetura: As Ameias em Cauda de Andorinha
O castelo é um exemplo perfeito de arquitetura militar veronesa. A característica mais distintiva é a crenelação ao longo do topo das muralhas e torres. Estas ameias em «cauda de andorinha» ou em forma de «M» (conhecidas como ameias gibelinas) são a assinatura dos castelos leais ao Imperador do Sacro Império Romano — por oposição às ameias quadradas dos castelos guelfos, fiéis ao Papa. Em Sirmione, criam uma silhueta rítmica e recortada contra o céu.
O castelo tem um pátio principal rodeado por quatro cortinas de muralha e três torres de canto. A grande torre central (Mastio) eleva-se 47 metros, dominando todo o complexo. Era o último refúgio da guarnição se as muralhas exteriores fossem brechadas. As paredes são construídas com faixas alternadas de pedra branca dos pedreiros locais e tijolo vermelho — uma técnica que é simultaneamente decorativa e estrutural, e que dá ao castelo a sua aparência distinta.
A Darsena: Um Porto Medieval
A parte mais única e espetacular do castelo é a darsena (doca). É um dos raros exemplos sobreviventes de um porto fortif icado do século XIV no mundo. A bacia está encerrada por muralhas altas com torres nos cantos, protegendo a frota dos Escaligeros de ataques inimigos e tempestades. A entrada do lago era guardada por uma corrente pesada que podia ser levantada ou baixada.
Caminhar hoje ao longo das muralhas da darsena é uma experiência inesquecível. Estamos suspensos sobre a água, com os barcos coloridos dos turistas modernos a balançar onde outrora ancorariam galeras de guerra medievais. O contraste entre a solidez da pedra e a leveza da água turquesa do Garda é um dos grandes prazeres visuais de toda a Itália do Norte.
A Lenda de Ebengardo e Arice
Como qualquer castelo romântico que se preze, o Castello Scaligero tem a sua história trágica de fantasmas. A lenda conta a história de um jovem nobre chamado Ebengardo, que vivia no castelo com a sua bela amante, Arice. Uma noite de tempestade, um cavaleiro da rival região do Véneto, Elalberto, bateu ao portão à procura de abrigo.
Ebengardo, preso pelas leis da hospitalidade, deixou-o entrar. No entanto, Elalberto ficou deslumbrado pela beleza de Arice e tentou forçá-la na sua câmara. Arice resistiu bravamente, mas foi mortalmente esfaqueada pelo intruso. Ao ouvir os gritos, Ebengardo correu para o quarto, mas chegou tarde. Em fúria cega, apanhou o punhal e matou Elalberto.
Consumido pela dor por não ter protegido a sua amada, Ebengardo foi definhando. Diz-se que o seu fantasma ainda assombra o castelo em noites de tempestade, vagueando pelos corredores à procura da sua Arice perdida. Os visitantes relatam zonas frias e uma sensação de tristeza profunda na ala residencial.
O Espírito de Catulo
Embora não seja estritamente uma lenda do castelo, o espírito do poeta romano Catulo paira sobre Sirmione. Tinha uma villa aqui (as ruínas de uma grande villa romana na ponta da península são tradicionalmente chamadas de Grotte di Catullo, embora provavelmente pertencessem a uma família mais rica). Alguns locais afirmam que em noites de verão calmas, é possível ouvir o sussurro de versos latinos carregados pelo vento em redor das muralhas do castelo — um lembrete de que Sirmione era um lugar de beleza muito antes de ser uma fortaleza.
Informações Práticas
Sirmione é extremamente popular, especialmente no verão.
- Subir a Torre: O ponto alto de qualquer visita é subir os 146 degraus até ao topo da Torre Central. A vista é panorâmica: vê-se toda a planta do castelo, a darsena, os telhados de terracota de Sirmione e a extensão cintilante do Lago de Garda a estender-se para os Alpes a norte.
- As Muralhas: O bilhete permite caminhar ao longo dos caminhos de ronda das muralhas, com a vista de soldado sobre as defesas e a ponte levadiça lá em baixo.
- Chegar de Barco: A melhor forma de apreciar a natureza «flutuante» do castelo é chegar de ferry a partir de Desenzano ou Peschiera. Ver as torres a emergir da água à medida que nos aproximamos é uma introdução mágica.
- Acessibilidade: É uma fortaleza medieval. Há muitas escadas, pedras irregulares e passagens estreitas. Não é acessível a cadeiras de rodas, e os carrinhos de bebé devem ficar na entrada.