O Livro de Pedra da História de França
Erguido num promontório estratégico sobre o Rio Loire, o Château Royal de Blois é mais do que um castelo; é um manual de arquitetura francesa e o palco de alguns dos acontecimentos mais sangrentos e significativos da história do país. Ao contrário da harmonia unitária de Cheverny ou da simetria grandiosa de Chambord, Blois é um monumento compósito, um mosaico de palácios construídos ao longo de vários séculos. As suas quatro alas, erigidas em quatro épocas distintas, rodeiam um pátio central, permitindo que os visitantes percorram a evolução do estilo arquitetónico francês desde a Idade Média até ao século XVII com uma única rotação de 360 graus.
Como residência escolhida de sete reis e dez rainhas de França, Blois foi a capital política do reino durante mais de um século. Foi aqui que Joana de Arc recebeu a bênção do Arcebispo de Reims em 1429 antes de marchar para libertar Orleães. Foi aqui que poetas como Pierre de Ronsard residiram, e onde o escandaloso e brutal assassínio do Duque de Guise ocorreu em 1588. Cada pedra em Blois sussurra uma história de poder, romance ou traição.
Arquitetura: Um Panorama de Estilos
O pátio do château funciona como um museu ao ar livre de arquitetura, com quatro alas distintas que harmonizam apesar das suas diferenças estilísticas.
A Fortaleza Medieval (Século XIII)
A parte mais antiga do castelo é a Salle des États (Sala dos Estados Gerais), construída pelo Conde Tibaldo VI em 1214. É uma das salas civis góticas mais antigas e maiores preservadas em França. A sua estrutura de nave dupla, separada por uma fila de colunas, e o seu teto em madeira com painéis evocam a era feudal dos Condes de Blois. Esta sala era usada para os tribunais de justiça e posteriormente para as assembleias dos Estados Gerais em 1576 e 1588, que tentaram resolver as guerras religiosas que dilaceravam França.
A Ala de Luís XII (1498–1500)
Construída pelo Rei Luís XII, que nasceu em Blois, esta ala marca a transição da fortaleza para o palácio de prazer. Construída em tijolo vermelho e pedra branca, é um primo exemplo do estilo Gótico Flamejante misturado com influências do Renascimento nascente. A entrada apresenta uma estátua equestre do Rei (uma cópia moderna; o original foi destruído durante a Revolução) e o porco-espinho, o seu emblema real, simbolizando que «quem se esfrega nele fica espetado».
A Ala de Francisco I (1515–1524)
Iniciada por Francisco I pouco após a sua ascensão ao trono, esta ala é a obra-prima do Renascimento francês. Influenciada pela arquitetura italiana, apresenta a famosa escadaria em espiral octogonal monumental, que se projeta para fora da fachada em vez de estar escondida dentro de uma torre. Adornada com esculturas intricadas, salamandras (emblema de Francisco I) e varandas, a escadaria foi concebida para ver e ser vista, servindo de grande palco para a corte assistir aos acontecimentos no pátio. A fachada voltada para a cidade é igualmente impressionante, com as suas loggias reminiscentes do Vaticano.
A Ala de Gaston de Orleães (1635–1638)
Desenhada pelo famoso arquiteto François Mansart, esta ala representa o estilo Clássico. Gaston de Orleães, irmão de Luís XIII, planeou reconstruir todo o castelo neste estilo moderno, mas a falta de fundos travou o projeto, salvando as alas renascentistas da demolição. Esta ala apresenta uma escadaria de pedra monumental com uma cúpula dupla, uma obra-prima de estereotomia (corte de pedra) que antecipa a grandiosidade de Versalhes.
História: Poder, Rainhas e Intrigas
Blois foi o centro da vida cortesã durante o Renascimento. Francisco I fundou aqui a biblioteca real, que foi posteriormente transferida para Fontainebleau. Mas são frequentemente as mulheres de Blois que deixaram as marcas mais profundas. Cláudia de França, filha de Luís XII e esposa de Francisco I, passou grande parte da sua vida aqui e morreu no castelo. Catarina de Médici, a poderosa Rainha-Mãe, também residiu em Blois e morreu aqui em 1589. A sua câmara, com os seus painéis de madeira restaurados, é um ponto alto da visita. A lenda fala dos seus «armários de veneno» escondidos atrás de painéis secretos, embora os historiadores sugiram que eram provavelmente usados para guardar documentos ou joias.
O Assassínio do Duque de Guise
O acontecimento mais dramático da história do castelo ocorreu a 23 de dezembro de 1588. Durante as Guerras da Religião, o Rei Henrique III sentiu-se ameaçado pelo crescente poder de Henrique I, Duque de Guise, o líder da Liga Católica. Sob o pretexto de uma reunião do conselho, o Rei convocou o Duque para os seus aposentos privados. Quando o Duque entrou na Câmara do Rei, foi atacado pelos guardas pessoais do Rei, os «Quarenta e Cinco», e esfaqueado até à morte aos pés da cama do Rei. O seu irmão, o Cardeal de Guise, foi executado no dia seguinte nas masmorras do castelo.
Conta-se que o Rei saiu do esconderijo para ver o cadáver, deu-lhe um pontapé e declarou: «Parece ainda maior morto do que vivo.» Este ato brutal não salvou Henrique III, que foi ele próprio assassinado poucos meses depois, mas permanece um dos assassínios políticos mais infames da história francesa.
O Museu das Belas Artes
Hoje, a ala de Luís XII alberga o Museu das Belas Artes de Blois (Musée des Beaux-Arts). A coleção inclui mais de 30 000 obras, com pinturas, esculturas e tapeçarias dos séculos XVI ao XIX. Os pontos altos incluem obras de Ingres, Rubens e Boucher, bem como uma galeria de retratos reais.
Os apartamentos reais na ala de Francisco I foram restaurados e mobilados para recriar a atmosfera do século XVI. Os visitantes podem percorrer a Câmara do Rei, a Galeria da Rainha e a Câmara do Conselho, admirando as lareiras policromadas e os pavimentos de azulejos que foram meticulosamente reconstruídos com base em registos históricos.
O Espetáculo de Luz e Som
Nas noites de verão, Blois transforma-se num teatro a céu aberto. Um espetacular espetáculo de som e luz ilumina o pátio, narrando a história turbulenta do castelo contra o pano de fundo das suas quatro fachadas distintas. Os fantasmas dos reis e das rainhas ganham vida de novo, as vozes do passado ecoam pela pedra centenária, e as projeções de luz dão cor e movimento ao que de dia é apenas arquitetura. É uma das melhores formas de compreender a riqueza histórica extraordinária que este único pátio encerra.
Informações Práticas
Uma visita ao Château Royal de Blois proporciona uma visão abrangente da história dos castelos do Vale do Loire. Localizado no centro da cidade de Blois, é facilmente acessível e oferece vistas espetaculares do rio e dos telhados de ardósia da cidade antiga. A cidade de Blois em si é um ponto de partida excelente para explorar o Vale do Loire, com Chambord a apenas 20 km e Cheverny a 15 km. O castelo está aberto todos os dias, com horários variáveis consoante a estação. A visita autoguiada com guia áudio é recomendada para compreender plenamente as quatro alas e os eventos que as tornaram históricas.