O Palácio de um Rei Ambicioso
Na cidade de Hillerød, a norte de Copenhaga, três ilhas artificiais num lago tranquilo suportam um dos monumentos mais imponentes da história escandinava: o Castelo de Frederiksborg. Construído pelo Rei Cristiano IV da Dinamarca entre 1600 e 1620, é o maior castelo renascentista de toda a Escandinávia, uma declaração arquitetónica de poder, ambição e sofisticação cultural que não tem rival na Europa do Norte.
Cristiano IV foi um dos monarcas mais fascinantes da história escandinava: arquiteto amador, mecenas das artes, fundador de cidades e incansável construtor que deixou a sua marca em cada canto do reino dinamarquês. Frederiksborg foi o seu projeto mais ambicioso — a tentativa de construir um palácio que rivaliza-se com os grandes palácios continentais e proclamasse a Dinamarca como uma potência cultural europeia de primeira grandeza. O castelo que criou, com as suas torres cobertas de cobre verde, as suas fachadas de tijolo vermelho pontuadas de pedra de Bornholm, os seus pórticos ornamentados e o seu lago espelhado, cumpriu completamente essa ambição.
O Renascimento Nórdico na Pedra e no Cobre
A arquitectura de Frederiksborg é uma síntese única do Renascimento europeu filtrado pela sensibilidade nórdica. Cristiano IV estava bem familiarizado com os grandes palácios dos Países Baixos, da Alemanha e de França, e os seus arquitetos incorporaram em Frederiksborg elementos de todas estas tradições. As torres bulbosas cobertas de cobre, os frontões elaborados em forma de volutadas, os pórticos com colunas clássicas sobrepostas — tudo isto aponta para uma assimilação sofisticada do vocabulário renascentista.
Mas o resultado não é uma imitação: é uma síntese original. A escala é nórdica, adaptada a um clima severo e a uma paisagem de lagos e florestas de bétulas. Os materiais são locais — o tijolo vermelho dinamarquês, o calcário de Gotland, o cobre das minas escandinavas. E a disposição das três ilhas, com o castelo principal na ilha maior, a Cavalariça na ilha intermédia e o jardim barroco na margem, cria uma sequência espacial que não tem paralelo em qualquer outro palácio europeu.
A Grande Sala dos Cavaleiros e a Ordem do Elefante
O interior do castelo revela a extensão das ambições cerimoniais de Cristiano IV. A Grande Sala dos Cavaleiros, no andar nobre do castelo principal, é uma das salas do trono mais impressionantes do norte da Europa. Com 64 metros de comprimento e tetos decorados com pinturas alegóricas, foi o palco dos grandes momentos da monarquia dinamarquesa: coroações, banquetes de gala, receções de embaixadores.
É aqui que se realizava a cerimónia da Ordem do Elefante, a mais elevada distinção honorífica do reino dinamarquês, fundada no século XV. O elefante — um animal que os dinamarqueses da Idade Média conheciam mais pela lenda do que pela observação direta — tornou-se o símbolo da nobreza e da lealdade ao rei. Os medalhões dos cavaleiros da Ordem, com os seus elefantes em esmalte branco e ouro, decoram ainda as paredes da sala em fileiras impressionantes, um registo visual de seis séculos de distinções reais.
O Órgão de Compenius: Um Instrumento de Outro Mundo
Na Chapel do Palácio, um dos interiores mais ricos e melhor preservados da Dinamarca, encontra-se um dos instrumentos musicais mais extraordinários da Europa: o Órgão de Compenius, construído por Esaias Compenius entre 1610 e 1615. Este órgão não é apenas antigo — é o órgão de tubos quase completo mais antigo e melhor preservado do mundo, ainda em condições de ser tocado.
A sua construção em madeira, sem qualquer metal nos tubos, produz um timbre suave e veludo que os organistas descrevem como incomparável — radicalmente diferente dos órgãos metálicos construídos nos séculos seguintes. As caixas de madeira esculpida e pintada que envolvem o instrumento são obras de arte em si mesmas. O órgão, que pertencia originalmente ao Duque de Braunschweig-Wolfenbüttel, foi adquirido por Cristiano IV e instalado na chapel de Frederiksborg em 1617. Que tenha sobrevivido ao incêndio de 1859 — um dos poucos objetos originais a fazê-lo — parece quase um milagre.
O Incêndio de 1859 e J.C. Jacobsen
Na noite de 17 de dezembro de 1859, um incêndio devastador consumiu a maior parte do Castelo de Frederiksborg. O fogo, que começou num quarto da estufa, espalhou-se rapidamente pela estrutura de madeira e ardeu durante horas. Quando amanheceu, três quartos do castelo tinham sido destruídos. Sobreviveram a chapel, a Sala de Audiências e algumas estruturas secundárias, mas a Grande Sala dos Cavaleiros, os aposentos reais e inúmeros tesouros artísticos tinham desaparecido.
A reconstrução do castelo podia ter ficado parada por décadas, fosse pelo custo proibitivo ou pela falta de vontade política. O que aconteceu foi diferente, graças a um homem: J.C. Jacobsen, o fundador da Cervejaria Carlsberg. Jacobsen, um homem de origem humilde que acumulara uma fortuna considerável com a cerveja, tinha uma visão clara do papel que a arte e a história deviam desempenhar na construção da identidade nacional dinamarquesa. Propôs ao governo que a Carlsberg financiaria a reconstrução do castelo com a condição de que fosse transformado num Museu de História Nacional.
A proposta foi aceite, e entre 1860 e 1884 o castelo foi reconstruído com uma fidelidade notável ao original, utilizando os desenhos e gravuras históricas para recriar as fachadas e os interiores destruídos. A contribuição de Jacobsen não se limitou ao dinheiro: o fundador da Carlsberg supervisionou pessoalmente muitos aspetos da reconstrução e da constituição das coleções do museu, demonstrando um envolvimento que ia muito além da filantropia convencional.
O Museu de História Nacional
Hoje, o Museu de História Nacional instalado no Castelo de Frederiksborg é a mais importante coleção de arte e história dinamarquesa fora de Copenhaga. As suas coleções abrangem seis séculos de história dinamarquesa, com uma ênfase particular nos retratos — a Dinamarca possui uma das mais ricas tradições europeias de retrato histórico, e Frederiksborg reúne alguns dos exemplares mais notáveis.
As salas estão organizadas cronologicamente, conduzindo o visitante desde os retratos dos primeiros reis Oldemburgo até à iconografia da Dinamarca moderna. Ao longo do percurso, encontram-se peças de mobiliário, tapeçarias, armas e objetos decorativos que documentam a evolução do gosto e da cultura dinamarquesa. A galeria de retratos do século XIX é particularmente impressionante, com obras de pintores dinamarqueses da Época Dourada que retratam a burguesia, a aristocracia e a família real com uma acuidade psicológica notável.
Os Jardins e o Lago
Em torno do castelo estende-se um dos jardins históricos mais bem preservados da Escandinávia. O jardim barroco, recriado no século XX com base em plantas históricas, apresenta os canteiros geométricos, as alamedas de tília e as fontes decorativas que caracterizavam os jardins de aparato do século XVII. O lago artificial que rodeia as três ilhas do castelo oferece passeios de barco no verão e, em invernos frios, superfícies de gelo que os habitantes locais usam para patinar, uma tradição que remonta a séculos.
Informações Práticas
O Castelo de Frederiksborg fica em Hillerød, acessível de Copenhaga em cerca de 45 minutos de comboio. O Museu de História Nacional está aberto ao público durante todo o ano, com ligeiras reduções de horário no inverno. A visita à chapel e à Grande Sala dos Cavaleiros é incluída no bilhete geral. Recomenda-se reservar pelo menos três horas para uma visita que faça justiça à riqueza das coleções. Os jardins são de entrada livre e são especialmente belos no início do outono.