O Versalhes Bávaro
Flutuando na Herreninsel — a Ilha dos Homens — no meio do Chiemsee, o maior lago da Baviera, o Novo Palácio de Herrenchiemsee é um monumento à obsessão, à beleza e à tragédia. Foi o último e mais caro dos castelos de conto de fadas construídos pelo Rei Luís II da Baviera, o «Rei dos Cisnes». Ao contrário de Neuschwanstein, que é um castelo medieval romantizado, ou de Linderhof, uma caixa de joias rococó, Herrenchiemsee foi concebido com um propósito único e específico: ser uma homenagem à monarquia absoluta do Rei Luís XIV de França, o «Rei Sol», a quem Luís II idolatrava.
Concebido não como residência mas como «Templo da Fama», é uma réplica quase perfeita do Palácio de Versalhes. Em muitos aspetos supera o original em opulência, beneficiando de dois séculos de avanços tecnológicos. No entanto, o palácio permanece um fragmento magnífico. Apenas a ala central foi completada antes da misteriosa morte de Luís II em 1886. Hoje, os visitantes percorrem salas a pingar ouro e porcelana para depois atravessarem uma porta e entrarem em corredores de tijolo a nu — uma representação física chocante de um sonho interrompido.
História: O Sonho de um Rei Solitário
Luís II comprou a ilha de Herreninsel em 1873 para salvar as suas árvores de serem abatidas. Mas logo a sua imaginação tomou conta do projeto. Após visitar Versalhes em 1874, estudou meticulosamente as suas plantas. Em 1878, começou a construção. O projeto era imenso: os materiais tinham de ser transportados por barco através do lago, e motores a vapor foram instalados para bombear água para as fontes. O custo era astronómico, esgotando os cofres reais e alarmando o governo bávaro.
Luís II ficou no palácio apenas alguns dias no outono de 1885. Dormiu na Câmara de Estado, vagueou pela Galeria dos Espelhos à luz de velas e desapareceu de volta para a noite. Quando morreu afogado no Lago Starnberg no ano seguinte, a construção parou imediatamente. As secções inacabadas foram demolidas ou deixadas como esqueletos. Durante décadas, o palácio foi visto como um elefante branco, mas hoje é um dos tesouros culturais mais visitados da Baviera.
Arquitetura: Superando o Rei Sol
A arquitetura de Herrenchiemsee é Neoclássica Barroca, uma recriação fiel da fachada de jardim de Versalhes. Mas Luís não queria apenas copiar — queria aperfeiçoar.
A Grande Galeria dos Espelhos é a peça central do palácio. Estendendo-se por 98 metros, é efetivamente mais comprida que a original Galerie des Glaces de Versalhes. Apresenta 17 janelas em arco viradas para o jardim e 17 espelhos correspondentes na parede oposta. O teto está pintado com cenas que glorificam Luís XIV. Nas noites em que o Rei Luís II habitava o palácio, mandava acender os 33 lustres de cristal e os 44 candelabros — mais de 2 000 velas no total —, criando um corredor de luz infinita para os seus passeios solitários. A visão de Luís percorrendo sozinho esta galeria iluminada por candeia, sem nenhum cortesão, nenhum convidado, nenhuma corte — é uma das imagens mais melancólicas da história europeia.
A Câmara de Estado era o coração sagrado do palácio. Nunca foi concebida para dormir, mas para as cerimônias do «Lever» e do «Coucher» — o ritual de levantar e deitar do Rei, imitando a corte francesa. A cama em si é uma obra-prima de entalhes e bordados, tendo demorado sete anos a completar. A sala é separada do resto pela balaustrada dourada, enfatizando a natureza divina do monarca.
A Sala de Jantar Privada apresenta uma maravilha de engenharia que satisfazia o desejo de isolamento de Luís: a «Tischlein-deck-dich» (a Mesinha que se Prepara Sozinha). Esta mesa mecânica podia descer através do chão para a cozinha abaixo, ser preparada com comida e içada novamente. Permitia ao Rei jantar completamente sozinho, sem nunca ver um criado. O lustre desta sala é feito de porcelana de Meissen — o maior objeto de porcelana alguma vez criado.
Os Jardins e as Fontes
O parque foi desenhado por Carl von Effner e, como o palácio, segue a estrita simetria dos jardins formais franceses. As fontes são espetaculares, adornadas com estátuas da Fama, da Fortuna e de Latona. Ao contrário de Versalhes, onde a pressão da água era sempre um problema, os engenheiros de Herrenchiemsee usaram bombas a vapor para criar jactos de água que disparavam alto no ar — uma proeza de que Luís II se orgulhava especialmente.
A Ala Norte Inacabada: O Sonho Interrompido
Uma visita ao palácio termina geralmente com um vislumbre da Ala Norte inacabada. É aqui que a ilusão se desfaz. As paredes de tijolo nu, os caixilhos de janelas vazios, os buracos para o andaime — tudo revela as técnicas de construção do século XIX e o abrupto fim do reinado do Rei. Este espaço é de uma honestidade perturbadora: enquanto as salas completas enganam os sentidos com perfeição artificial, a ala inacabada diz a verdade sobre o que o palácio é — um fragmento de um sonho que a realidade interrompeu antes de poder ser concluído. Muitos visitantes referem que este é o momento mais emocionante de toda a visita: o instante em que a grandiosidade dissolve e o que fica é apenas um projeto suspenso, as mãos dos construtores ainda visíveis na argamassa nunca rebocada, o andar nunca completado, a visão nunca realizada. Luís II ficou no palácio terminado apenas uma semana; morreu sem nunca ver o que poderia ter sido.
O Fantasma do Rei
A ilha tem uma atmosfera melancólica, particularmente nas névoas do outono. Os locais falam ocasionalmente do «Kini» — o carinhoso termo bávaro para Luís — ainda a vaguear pela sua ilha. Diz-se que no aniversário da sua morte, os lustres não iluminados da Galeria dos Espelhos piscam às vezes com uma luz fantasmagórica. Verdade ou não, o espírito do rei solitário é palpável em cada sala.
Informações Práticas
Chegar a Herrenchiemsee é em si uma aventura. É necessário ir primeiro à cidade de Prien am Chiemsee (cerca de uma hora de comboio desde Munique), e daí apanhar um barco até à ilha. A travessia de barco oferece belas vistas dos Alpes. Da cais da ilha, uma caminhada agradável de 15 a 20 minutos pela floresta leva ao palácio, ou podem utilizar-se carruagens puxadas a cavalos. As visitas são guiadas, duram cerca de 35 minutos e estão disponíveis em alemão e inglês. O bilhete inclui geralmente a entrada para o Museu do Rei Luís II, onde se podem ver as suas vestes de coroação, fotografias pessoais, a máscara mortuária e os planos dos castelos que nunca chegou a construir.