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Castelo de Nijō

Castelo de Nijō

📍 Quioto, Japão 📅 Construído em 1603

O Reduto do Xogum na Capital Imperial

No coração de Quioto, a antiga capital do Japão, encontra-se um castelo que foi construído não apenas para a defesa, mas como uma imponente demonstração de poder político. O Castelo de Nijō (Nijō-jō) era a residência em Quioto dos Xoguns Tokugawa, os ditadores militares que governaram o Japão durante mais de 250 anos no período Edo. Enquanto o Imperador habitava o próximo Palácio Imperial, isolado e venerado mas impotente, a autoridade real residia por detrás do fosso e das muralhas de pedra de Nijō.

É um Património Mundial da UNESCO e um dos melhores exemplos sobreviventes de arquitetura palaciana de castelo da era feudal japonesa. Ao contrário de Himeji ou do Castelo de Osaka, famosos pelas suas imponentes torres de donjon, Nijō é famoso pelos seus espraiados palácios de um só piso, pelos seus magníficos jardins e pela sua excelsa arte. É um lugar onde os soalhos cantam e as paredes são pintadas a ouro.

O Ascenso e a Queda dos Tokugawa

A história do Castelo de Nijō emoldura a totalidade do Xogunato Tokugawa. A sua construção foi ordenada em 1601 por Tokugawa Ieyasu, o primeiro Xogum, pouco depois da sua vitória na Batalha de Sekigahara, que unificou o Japão. A construção foi concluída em 1603, e Ieyasu recebeu aqui a sua nomeação oficial como Xogum. O castelo foi deliberadamente construído perto do Palácio Imperial para vigiar de perto o Imperador.

Nos dois séculos e meio seguintes, o castelo serviu como quartel-general do Xogum sempre que este visitava Quioto a partir de Edo (Tóquio). Foi expandido pelo terceiro Xogum, Iemitsu, em 1626, em preparação para uma visita do Imperador Go-Mizunoo. Esta visita foi um momento fulcral, uma exibição de riqueza destinada a demonstrar ao Imperador que o Xogum era o verdadeiro soberano da terra.

Num irónico jogo da história, o Castelo de Nijō foi também o palco do fim do Xogunato. Em 1867, o 15.º e último Xogum, Tokugawa Yoshinobu, declarou a «Restauração do Governo Imperial» na Grande Sala do Palácio Ninomaru. Com este ato, devolveu formalmente o poder ao Imperador, pondo fim à era feudal e dando início à Restauração Meiji. Assim, o Xogunato começou e terminou dentro das mesmas muralhas.

O Palácio Ninomaru: Um Tesouro de Arte

O coração do complexo do castelo é o Palácio Ninomaru. É constituído por cinco edifícios interligados dispostos em diagonal escalonada, um estilo conhecido como shoin-zukuri. À medida que se percorre o palácio, passa-se por uma hierarquia de salas, das salas de espera para visitantes de baixa estirpe até às salas de audiência para os grandes daimyo (senhores feudais).

Os interiores são soberbos. As portas deslizantes (fusuma) e as paredes estão cobertas com pinturas dos mestres da escola Kanō, os pintores oficiais do Xogunato. Representam tigres, leopardos, pinheiros e cerejeiras sobre um fundo de folha de ouro. Os tigres, animais nunca vistos no Japão à época, são representados com uma ferocidade quase mítica, destinada a intimidar os visitantes.

Os Soalhos Rouxinol (Uguisubari)

O traço mais célebre do Palácio Ninomaru é invisível. Ao percorrer os corredores, as tábuas de madeira do soalho emitem um chiado semelhante ao canto de um rouxinol (uguisu). Não se tratava de um defeito de carpintaria; era um sofisticado sistema de segurança.

Os soalhos foram construídos com grampos e pregos por baixo da superfície que roçam contra um suporte metálico quando é exercida pressão. Isso criava um chiado inconfundível que tornava impossível para qualquer pessoa — mesmo um ninja ou um assassino — mover-se sorrateiramente pelos corredores sem ser detetado. A lenda diz que os guardas do Xogum desenvolveram um ritmo especial de passos para se identificarem mutuamente, enquanto qualquer chiado irregular sinalizava a presença de um intruso. Hoje, os soalhos continuam a cantar, deliciando os turistas tal como outrora protegiam o Xogum.

Os Jardins: Uma Paisagem de Poder

O Castelo de Nijō acolhe três jardins distintos, cada um representando uma época diferente do design paisagístico japonês.

O Jardim Ninomaru

Projetado pelo mestre jardineiro e mestre do chá Kobori Enshu, este jardim é um «Lugar de Beleza Especial». Apresenta um grande lago com três ilhas, representando a Ilha da Felicidade Eterna (Horai-jima), o grou e a tartaruga (símbolos de longevidade). A disposição das pedras é magistral: foram colocadas de forma a que o jardim parecesse magnífico de qualquer ângulo quando visto a partir do palácio, garantindo que o Xogum tinha sempre uma vista perfeita.

O Jardim Honmaru

Situado no círculo interior de defesa, este jardim foi originalmente construído por Kobori Enshu, mas foi remodelado no final do século XIX, quando o castelo foi utilizado como residência imperial. Apresenta uma influência mais ocidental, com relvados e caminhos sinuosos.

O Jardim Seiryu-en

Este é um jardim moderno construído em 1965 para receber convidados oficiais da cidade. Combina elementos tradicionais japoneses com um relvado, criando um estilo de fusão único, e conta também com duas casas de chá.

O Palácio Honmaru e a Torre Principal Perdida

O Honmaru (círculo principal) alberga também um palácio. O donjon original de cinco andares aqui situado foi atingido por um raio e incendiou-se em 1750. Nunca foi reconstruído, e hoje apenas as fundações de pedra permanecem, oferecendo uma vista panorâmica dos terrenos do castelo e da cidade de Quioto. O atual edifício do Palácio Honmaru foi transferido dos terrenos do Palácio Imperial de Quioto em 1893. É um raro exemplo de arquitetura palaciana do período tardio Edo, embora frequentemente encerrado ao público por razões de conservação.

As Cerejeiras e o Festival Sakura

Em finais de março e inícios de abril, os terrenos do castelo são um dos melhores locais de Quioto para ver as cerejeiras em flor (sakura). O «Festival Sakura» inclui iluminações noturnas em que as cerejeiras e o portal do castelo são iluminados, criando uma atmosfera mágica. A combinação das flores cor-de-rosa com as paredes brancas e os telhados de telha curvados é uma das vistas mais icónicas do Japão. O Parque do Castelo oferece passeios tranquilos entre os canteiros de flores, e pequenos estabelecimentos vendem chá e doces tradicionais enquanto os visitantes contemplam o espetáculo efémero da natureza — uma experiência que capta com perfeição a sensibilidade estética japonesa do mono no aware, a melancolia da beleza passageira.

Informações Práticas

O Castelo de Nijō está localizado no centro de Quioto e é facilmente acessível de metro (Estação Nijojo-mae). É obrigatório descalçar os sapatos para entrar no Palácio Ninomaru. A fotografia é estritamente proibida no interior para proteger as pinturas. Recomenda-se vivamente o aluguer de um guia áudio para compreender a hierarquia das salas e o simbolismo das pinturas — um guia rico em detalhes que transforma a visita de uma simples admiração estética numa viagem ao pensamento político e estético do Japão feudal.