O Centro do Universo
Durante mais de um século, o Palácio de Versalhes (Château de Versailles) foi o centro do mundo — ou pelo menos, o centro da cultura, moda e poder político do mundo ocidental. O que começou como um humilde pavilhão de caça de tijolo para Luís XIII foi transformado pelo seu filho, Luís XIV, o Rei Sol, no palácio mais magnífico da Europa. Tornou-se uma gaiola dourada para a nobreza francesa, um teatro da monarquia absoluta e, por fim, o símbolo do excesso que acendeu a Revolução Francesa.
Com os seus 2 300 aposentos, 67 escadarias e 800 hectares de jardins, Versalhes é avassalador. Foi concebido para impressionar, para intimidar e para proclamar a glória de França. Hoje, como Património Mundial da UNESCO, continua a ser um dos monumentos mais visitados do planeta.
A Visão do Rei Sol
Luís XIV tinha uma motivação política clara para construir Versalhes: queria afastar a corte das turbulentas multidões de Paris. Ao forçar a poderosa aristocracia a residir com ele em Versalhes — onde podia vigiá-la e onde ela se arruinaria a comprar roupas e a jogar para o agradar —, neutralizou o poder dos nobres e estabeleceu-se como soberano absoluto.
A construção do palácio foi uma empreitada colossal. Envolveu drenar pântanos, deslocar florestas inteiras e desviar rios para alimentar as fontes. Milhares de trabalhadores morreram durante a construção. O resultado foi um edifício sem igual. O «Grand Siècle» (Grande Século) da arte e arquitetura francesa está aqui perfeitamente encapsulado: cada pedra, cada planta de jardim e cada pintura ao tecto foram concebidos para proclamar uma única mensagem — a glória de França e do seu rei.
No Interior do Palácio
O percurso de visita conduz habitualmente pelos Aposentos de Estado do Rei e da Rainha, pela Capela Real e pela Galeria dos Espelhos.
A Galeria dos Espelhos (Galerie des Glaces)
Esta é a obra-prima de Versalhes. Com 73 metros de comprimento, foi projetada por Jules Hardouin-Mansart para deslumbrar os visitantes. Dezassete janelas arqueadas dão para os jardins, e em frente a elas encontram-se dezassete arcos preenchidos com 357 espelhos. No século XVII, os espelhos eram luxos incrivelmente dispendiosos. Encher uma galeria com eles era uma demonstração de riqueza inimaginável. O tecto está coberto de pinturas de Charles Le Brun representando as vitórias militares de Luís XIV.
A galeria foi palco de momentos históricos decisivos. Foi aqui que o Império Alemão foi proclamado em 1871 — uma humilhação para a França —, e aqui que o Tratado de Versalhes foi assinado em 1919, pondo oficialmente fim à Primeira Guerra Mundial. Duas cenas de poder máximo, separadas por quase cinquenta anos, no mesmo espelho dourado.
O Quarto do Rei
Localizado no centro exato do palácio, voltado para o sol nascente, fica o Quarto do Rei. Era a sala mais importante do reino. As famosas cerimónias públicas do «acordar» (Lever) e do «deitar» (Coucher) do Rei decorriam aqui, assistidas por dezenas de cortesãos favorecidos. Segurar o castiçal para o Rei enquanto ele se despia era a maior honra a que um nobre podia aspirar.
A Ópera Real
Construída inteiramente em madeira (por razões acústicas) mas pintada para parecer mármore, a Ópera Real é uma joia frequentemente ignorada. Inaugurada em 1770 para o casamento do futuro Luís XVI com Maria Antonieta, é uma maravilha azul e dourada da tecnologia, com um soalho que podia ser elevado, transformando a ópera numa sala de baile.
Os Jardins: O Homem sobre a Natureza
Os jardins de Versalhes são tão importantes quanto o edifício. Desenhados pelo genial arquiteto paisagista André Le Nôtre, são o exemplo supremo do «Jardin à la française» (jardim formal francês). Tudo é simétrico, geométrico e controlado — demonstração do poder do Rei não apenas sobre os homens, mas sobre a própria natureza. As cinquenta fontes dos jardins eram, no tempo de Luís XIV, impossíveis de fazer funcionar todas em simultâneo por falta de pressão de água. Os trabalhadores das fontes assoviavam uns para os outros para as ligar à medida que o Rei se aproximava e as desligar quando ele passava. Hoje, os «Espetáculos das Fontes Musicais» ao fim de semana no verão permitem vê-las em plena glória.
O Domínio do Trianon
Tentando escapar à rígida etiqueta e à constante vigilância pública do palácio principal, os reis construíram retiros menores e mais íntimos no interior do parque. O Grand Trianon, de mármore cor-de-rosa, foi construído por Luís XIV para si e para a sua amante. Napoleão aqui pernoitou frequentemente. O Petit Trianon é o domínio de Maria Antonieta. Foi-lhe oferecido por Luís XVI; aqui, ninguém — nem mesmo o Rei — podia entrar sem o seu convite. A Rainha fez redesenhar os jardins no estilo inglês e mandou construir o Hameau de la Reine (Aldeia da Rainha), uma aldeia rústica em miniatura completa com uma quinta, uma leitaria e um moinho. Ali, a Rainha e as suas damas vestiam simples vestidos de musselina branca e brincavam a ser leiteiras, longe dos rituais sufocantes da corte. É um lugar encantador, se bem que pungente, que sublinha o abismo entre a monarquia e os camponeses famintos de França.
Perguntas Frequentes
Cheirava mal? Historicamente, sim. Com milhares de pessoas e poucas casas de banho, Versalhes do século XVIII era notório pelo seu odor. Hoje, felizmente, cheira apenas a madeira polida e flores frescas. Quanto se caminha? Muito. Uma visita completa implica percorrer vários quilómetros, especialmente nos jardins — use calçado confortável. Porque estão alguns aposentos sem mobília? A grande maioria do mobiliário original foi leiloada durante a Revolução Francesa. Os curadores têm passado décadas a comprar de volta peças originais ou a encontrar equivalentes, mas algumas salas permanecem escassamente mobiladas comparadas com 1789, quando a multidão varou os portões e a rainha fugiu pelos jardins numa noite de outubro.
Informações Práticas
Versalhes fica a cerca de 20 km a sudoeste de Paris: tomar o comboio RER C até à estação «Versailles Château Rive Gauche» e a dez minutos a pé chegará aos portões do palácio. O bilhete «Passaporte» dá acesso a todo o domínio. A reserva antecipada online é obrigatória. Versalhes é famosamente concorrido; a melhor estratégia é chegar depois das 15h00, quando os grupos de turistas partem, ou ir diretamente aos Trianons e fazer o palácio principal no final da tarde. A entrada no Parque (as zonas arborizadas além dos jardins formais) é gratuita para peões e ciclistas.