O Gigante Branco da Eslováquia
Erguendo-se como um esqueleto alvejante das verdes colinas onduladas do leste da Eslováquia, o Castelo de Spiš (Spišský hrad) é um espetáculo que desafia a escala. Não é apenas um castelo; é uma cidade fortificada e espalhada no céu. Cobrindo mais de 41 000 metros quadrados (tornando-o um dos maiores complexos de castelos da Europa Central), este Património Mundial da UNESCO é um testemunho da turbulenta história da região. As suas deslumbrantes paredes de calcário branco, empoleiradas numa rocha de travertino a 634 metros acima do nível do mar, dominam o horizonte durante quilómetros em redor.
Ao contrário dos palácios cuidadosamente tratados da Europa Ocidental, Spiš é uma ruína crua e bruta. Parece antigo e elemental. A percorrer os seus vastos pátios, quase se ouve o clamor dos exércitos que o sitiaram. Ergue-se como símbolo de resistência, tendo sobrevivido a invasões, incêndios e séculos de abandono.
A Fortaleza de Travertino
A geografia de Spiš é a sua maior defesa. O castelo assenta num fenómeno natural: uma colina de travertino criada por fontes minerais ao longo de milénios. As íngremes falésias em todos os lados tornavam-no uma fortaleza natural muito antes de ser colocada a primeira pedra. Evidências arqueológicas mostram que o local foi habitado pelos Celtas e posteriormente por tribos eslavas que construíram rudes fortes de cume aqui. Mas o gigante de pedra que vemos hoje começou a sua vida no século XII como fortaleza fronteiriça do Reino da Hungria.
A Resistência à Horda Mongol
O primeiro grande teste do castelo chegou em 1241. A Horda de Ouro Mongol, liderada por Batu Khan, varreu a Europa, deixando um rasto de destruição. Queimaram aldeias e saquearam cidades, mas quando chegaram a Spiš, pararam. As novas fortificações de pedra do castelo (construídas mesmo a tempo) e a sua posição inacessível provaram ser demasiado até para a temida cavalaria mongol. Spiš foi uma das poucas fortalezas que não caiu, salvando a vida dos milhares de refugiados que se abrigavam dentro das suas muralhas.
Os Três Castelos
O complexo é na verdade uma combinação de três secções distintas construídas em diferentes épocas. O Castelo Superior, a parte mais antiga, localizado no cume da rocha, contém o palácio românico, a torre cilíndrica e a cisterna — este era o último refúgio. O Castelo Médio, adicionado no final do século XV, inclui a «Casa do Capitão» e a porta principal, sendo o coração administrativo da fortaleza. O Castelo Inferior, uma expansão massiva adicionada pela família Zápolya, é um vasto pátio concebido para albergar toda a população das redondezas em tempos de guerra. Hoje, este espaço aberto relvado é frequentemente usado para reconstituições históricas, espetáculos de falcoaria e concertos.
As Famílias Nobres
Ao longo dos séculos, o castelo passou pelas mãos das famílias mais poderosas da Hungria. A família Zápolya (que mais tarde daria reis à Hungria) transformou-o de uma sombria fortaleza numa confortável residência gótica tardia. Mais tarde, a família Thurzó acrescentou toques renascentistas, privilegiando o luxo em detrimento da simples defesa. Finalmente, a família Csáky possuiu o castelo até 1945. Foram eles que o abandonaram em grande parte no início do século XVIII, simplesmente porque era demasiado frio e desconfortável para as exigências da vida moderna, preferindo construir solares confortáveis nas aldeias abaixo.
O Grande Incêndio de 1780
A ruína do castelo não veio de um exército inimigo, mas de uma faísca. Em 1780, um incêndio devastador destruiu todo o complexo. A causa permanece um mistério debatido por historiadores. Alguns dizem que foi um raio que incendiou os telhados de madeira. Outros sugerem que foi causado por soldados da guarnição a destilar aguardente ilegal na cave. Seja qual for a causa, o incêndio reduziu o outrora poderoso palácio a uma casca sem telhado, e assim permaneceu desde então.
A Lenda de Hedvig
Todo o grande castelo precisa de um fantasma, e Spiš tem Hedvig. A lenda diz que ela era irmã de um senhor do castelo que se apaixonou por um nobre de uma família rival. Secretamente, abriu os portões para o deixar entrar, pensando que ele vinha por ela. Em vez disso, ele trouxe os seus soldados e capturou o castelo, matando a guarnição. Percebendo que havia traído o seu povo por um amante falso, a desolada Hedvig atirou-se da torre mais alta. Diz-se que em noites tempestuosas ainda se pode ver a sua figura branca a vaguear pelas ameias, à procura das chaves para fechar o portão que nunca deveria ter aberto.
Uma Estrela de Cinema
Se o Castelo de Spiš lhe parece familiar, talvez já o tenha visto no grande ecrã. A sua escala épica e estética de fantasia tornaram-no num local favorito para cineastas. Foi o local de filmagem principal do filme Coração de Dragão (1996) e desempenhou um papel importante em A Última Legião (2007), com Colin Firth.
Contexto Regional: A Terra de Spiš
Para compreender verdadeiramente o Castelo de Spiš, é necessário entender o contexto regional único em que se insere. A região de Spiš (Zips em alemão, Szepesség em húngaro) foi durante séculos uma das áreas mais cosmopolitas da Europa Central. Colonos alemães, conhecidos como Saxões de Spiš, estabeleceram-se aqui na Idade Média, criando uma série de prósperas cidades mercantis. Estas cidades formavam uma confederação semiautónoma denominada «As 24 Cidades Reais de Spiš», ligadas ao castelo como centro político e militar da região. Esta rica mistura de culturas húngara, eslovaca e alemã deixou uma herança arquitetónica e cultural extraordinária — e o Castelo de Spiš era o ponto focal de toda esta complexidade histórica.
Informações para Visitantes
Spiš fica perto da cidade de Spišské Podhradie. Os visitantes podem estacionar na cidade abaixo e subir a pé pelo caminho íngreme (aproximadamente 45-60 minutos), o que oferece vistas fantásticas mas é cansativo. Alternativamente, existe um parque de estacionamento no lado leste, a apenas 10 minutos a pé da porta principal. Uma advertência sobre o clima: o castelo está completamente exposto. No verão, a pedra branca reflete o calor, tornando-o num forno. Na primavera e no outono, o vento pode ser feroz. Recomenda-se vivamente o guia áudio — disponível através de uma aplicação móvel — pois sem ele pode ser difícil imaginar como eram os aposentos vazios. Não perca a Spišská Kapitula (o «Vaticano Eslovaco») na cidade abaixo, uma cidade eclesiástica preservada de forma encantadora que também faz parte do sítio da UNESCO. O castelo fecha durante os meses de inverno (dezembro a março) devido à neve e ao gelo que tornam os caminhos perigosos. A melhor época para visitar é entre maio e setembro.