O Local de Nascimento do Rei Artur
Com o dramático cenário da costa norte da Cornualha como pano de fundo, o Castelo de Tintagel é um lugar onde a história e a lenda se entrelaçam de forma indissociável. Empoleirado num promontório agreste e fustigado pelo vento que avança para o Oceano Atlântico, as ruínas evocam um sentido de mistério que tem cativado imaginações durante séculos. Embora os vestígios físicos sejam medievais, o espírito do lugar remonta a tempos muito mais recuados, às brumas da Alta Idade Média e à perene lenda do Rei Artur.
Segundo a História dos Reis da Bretanha de Godofredo de Monmouth (século XII), Tintagel foi o local onde o Rei Artur foi concebido. A história narra que Uther Pendragon, Rei da Bretanha, se apaixonou por Igraine, esposa de Gorlois, Duque da Cornualha. Com a ajuda do mago Merlim, Uther foi transformado à semelhança de Gorlois, permitindo-lhe entrar em Tintagel e passar a noite com Igraine. O resultado dessa união foi Artur, o lendário rei que uniria a Bretanha. Este conto transformou um isolado promontório da Cornualha num dos locais literários mais famosos do mundo.
Esta ligação mitológica era tão poderosa que na década de 1230, Ricardo, Conde da Cornualha (irmão do Rei Henrique III), decidiu construir um castelo aqui. Não foi construído por necessidade militar — o local é geograficamente isolado e não tem valor estratégico —, mas antes como uma declaração de poder e de linhagem. Ao erguer um castelo no lendário local de nascimento de Artur, Ricardo apresentava-se como sucessor dos antigos reis da Cornualha. O castelo foi propositadamente concebido para parecer arcaico mesmo quando era novo.
A Povoação da Alta Idade Média
Embora a lenda arturiana seja cativante, a realidade arqueológica de Tintagel é igualmente fascinante. As escavações revelaram que muito antes do castelo medieval do Conde Ricardo, Tintagel foi um local de grande importância nos séculos V a VII d.C. — o período frequentemente referido como a «Alta Idade Média». Longe de ser uma localidade periférica, Tintagel era um próspero estabelecimento de alto estatuto e uma fortaleza real dos Reis da Dumnónia.
Os arqueólogos descobriram milhares de fragmentos de cerâmica importada, incluindo ânforas do Mediterrâneo que outrora continham azeite e vinho, e finas louças do Norte de África e da Turquia. Com efeito, mais cerâmica importada deste período foi encontrada em Tintagel do que em todos os outros sítios da Grã-Bretanha combinados. Isto sugere que os governantes de Tintagel eram ricos, poderosos e ligados ao mundo bizantino numa época em que grande parte da Bretanha tinha entrado em declínio económico.
A Gruta de Merlim
Abaixo das ruínas do castelo, esculpida pela força implacável das ondas atlânticas, encontra-se uma gruta marinha conhecida como a Gruta de Merlim. Esta caverna de atmosfera única atravessa a ilha de parte a parte, acessível apenas na maré baixa. É aqui, no eco das ondas que se quebram, que o poeta Alfred Lord Tennyson imaginou o infante Artur a ser arrastado pela maré e apanhado por Merlim.
A gruta acrescenta uma camada tangível de magia à visita. Ao percorrer o escuro túnel desde o abrigo até ao mar aberto, com as ruínas do castelo a elevar-se centenas de metros acima, é fácil perceber por que razão este lugar se tornou a âncora do maior ciclo mítico da Grã-Bretanha. O rosto de Merlim foi mesmo esculpido na face rochosa perto da entrada da gruta, a velar pelos peregrinos que vêm em busca do mago.
A Grande Sala e o Jardim Medieval
Uma das partes mais impressionantes do castelo do Conde Ricardo foi a Grande Sala. Embora restem apenas as fundações, estas delineiam um edifício com mais de 25 metros de comprimento, destinado a festins e receções. É fácil imaginar o Conde presidindo à corte aqui, rodeado de tapeçarias e menestréis, emulando conscientemente a corte de Camelot.
Perto das ruínas da sala, a English Heritage recriou um jardim medieval. Baseado em vestígios de plantas encontrados durante as escavações e em ilustrações medievais, o jardim apresenta plantas que teriam sido cultivadas para fins culinários, medicinais e decorativos no século XIII. É um lugar tranquilo que oferece um vislumbre da vida doméstica do castelo.
A Ponte Pedonal e a Ilha
Durante séculos, a única forma de aceder à parte «insular» do castelo (que é na verdade uma península ligada por um estreito e fragmentado istmo) era por um caminho íngreme e traiçoeiro. Mas em 2019, a English Heritage inaugurou uma espetacular nova ponte pedonal em consola que vence o desfiladeiro de 58 metros entre o continente e a ilha, recriando a ligação terrestre que existiria na Idade Média.
Atravessar a ponte é o ponto alto da visita, oferecendo vistas vertiginosas sobre as falésias e o mar abaixo. Uma vez na ilha, os visitantes podem explorar os vestígios da Grande Sala, o jardim medieval e os edifícios do período da Alta Idade Média. No ponto mais alto da ilha, erguida em bronze, encontra-se uma figura masculina espectral que segura uma espada — intitulada Gallos (palavra córnica que significa «poder») —, representando simultaneamente o passado real do local e a lenda de Artur.
Flora, Fauna e Folclore
Para além da história, Tintagel é um santuário para a vida selvagem. As falésias estão designadas como Sítio de Especial Interesse Científico. Os visitantes podem avistar focas a boiar nas águas abaixo, e aves marinhas como tordos, tordilhos e fulmares a nidificar nas faces das falésias. A rara gralha da Cornualha, com o seu característico bico e patas vermelhos, também regressou à área. O folclore local é abundante: para além de Artur, o local está associado à trágica história de amor de Tristão e Isolda. Algumas lendas afirmam que o fantasma de Merlim assombra a gruta, e que nas noites de tempestade, o uivo do vento são na verdade os gritos do antigo mago.
Informações para Visitantes
O Castelo de Tintagel é gerido pela English Heritage. Devido à popularidade do local e à capacidade da ponte, são frequentemente necessários bilhetes com hora marcada, especialmente nos meses de verão. O local fica na aldeia de Tintagel, onde os visitantes podem também visitar o Old Post Office, um solar do século XIV. O terreno é íngreme e irregular, com muitos degraus, pelo que se recomenda calçado adequado. Para quem consegue fazer a subida, a recompensa é um dos locais históricos mais evocadores e deslumbrantes da Europa — um lugar onde a linha entre a história e a lenda se dissolve na névoa do Atlântico.