A Potência Normanda
Erguendo-se austero e cinzento das verdes margens do Rio Boyne, o Castelo de Trim é a maior fortificação anglo-normanda da Irlanda. É um monumento à força bruta e à perícia de engenharia da invasão normanda. Com o seu enorme keep de 20 lados, extensas muralhas e um imponente portal, domina a vila medieval de Trim. Durante séculos, este era o limite da «Pale», a área sob controlo inglês direto. Para além das suas muralhas estendiam-se os reinos gaélicos irlandeses, uma ameaça constante para os lordes normandos. Hoje é mundialmente famoso não apenas pela sua história, mas como o pano de fundo realista e cru do épico filme de Mel Gibson Braveheart.
É uma ruína, mas uma ruína magnífica. O telhado desapareceu, permitindo que o céu irlandês olhe para o interior da grande sala, mas as muralhas permanecem firmes, um testemunho da argamassa misturada com sangue de boi (segundo a lenda) que as mantém unidas. Representa um ponto de viragem na história irlandesa, marcando o fim da antiga ordem gaélica e o início de séculos de domínio inglês.
História: A Fortaleza de De Lacy
Em 1172, pouco após a chegada dos Normandos à Irlanda, o Rei Henrique II concedeu o Reino de Meath a Hugh de Lacy. De Lacy precisava de uma fortaleza para controlar a travessia do Rio Boyne. Começou com um castelo de madeira em forma de ringwork, mas este foi incendiado pelo Rei Supremo da Irlanda, Ruaidrí Ua Conchobair, em 1174 durante uma revolta gaélica. Imperturbável e talvez enfurecido, de Lacy começou a construir em pedra no ano seguinte. A construção do enorme keep demorou 30 anos a concluir.
O castelo tornou-se um centro de administração e defesa, passando pelas mãos de algumas das famílias mais famosas da história medieval, incluindo os Mortimers e os Duques de York. No século XV, albergou mesmo uma casa da moeda real, produzindo moeda irlandesa conhecida como «farthings de Patrick». No entanto, no século XVII, após as guerras da Reforma e a conquista de Cromwell, entrou em declínio, sendo despojado de chumbo e madeira e abandonado até que o Estado assumiu a sua tutela em 1993.
Arquitetura: O Keep Cruciforme
A característica definidora de Trim é o seu único Keep (Donjon). Ao contrário dos keeps normandos quadrados encontrados em Inglaterra (como a Torre Branca), o keep de Trim é cruciforme — em forma de cruz com vinte lados. Ergue-se com três andares de altura. Este design eliminava «pontos cegos» para os defensores, permitindo que os arqueiros cobrissem todos os ângulos da base. As muralhas têm 3 metros de espessura, tornando-o virtualmente inexpugnável aos engenhos de cerco medievais. Servia simultaneamente como residência do senhor e como último refúgio defensivo.
O keep é protegido por uma enorme muralha cortinada e um fosso cheio de água (abastecido pelo Boyne). A muralha estende-se por 450 metros e está pontuada por cinco torres em D. Os visitantes entram pela Porta de Trim (ou Porta de Dublin), outrora protegida por uma barbacã, uma ponte levadiça e uma «troneira» onde os defensores podiam despejar água a ferver ou pedras sobre os atacantes.
Braveheart: O Legado Cinematográfico
Em 1994, o Castelo de Trim foi transformado na cidade inglesa de York e na fortaleza escocesa de Stirling para as filmagens de Braveheart. A equipa de filmagem construiu uma enorme extensão de madeira ao castelo e uma falsa porta de Londres. Os habitantes locais foram contratados como figurantes (fazendo de soldados escoceses e ingleses), e muitos ainda contam histórias sobre a produção. Se se ficar no fosso perto da Porta da Cidade, está-se onde William Wallace (Mel Gibson) gritou «Liberdade!» (embora essa cena fosse na verdade uma composição de localizações). A produção trouxe uma nova vida e fama à vila, e abriu caminho para a Irlanda se tornar um importante cenário para produções de fantasia medieval como A Guerra dos Tronos.
A Pale Irlandesa: O Contexto Histórico
Para compreender plenamente o Castelo de Trim, é necessário entender o conceito da Pale Irlandesa. Após a invasão normanda de 1169, os novos senhores estabeleceram gradualmente uma zona de controlo efetivo em torno de Dublin, conhecida como a «Pale». O Castelo de Trim ficava precisamente na fronteira desta zona, o que explica a sua enorme importância estratégica. A expressão inglesa «beyond the pale» (além dos limites do aceitável) tem a sua origem precisamente nesta fronteira geográfica — o que ficava para além da Pale era considerado selvagem, incontrolável e perigoso. O castelo era o último posto avançado da civilização (tal como os Normandos a definiam) antes do interior gaélico. Esta posição de fronteira moldou cada aspeto do design e da história do castelo, desde a espessura das suas muralhas até à disposição das suas torres, todas voltadas para ameaças que podiam surgir de qualquer direção a qualquer momento. Visitar o Castelo de Trim é, portanto, não apenas visitar uma fortaleza medieval, mas situar-se no epicentro de séculos de tensão cultural e política entre as tradições gaélica e normanda que moldaram a Irlanda que conhecemos hoje.
Arqueologia nas Proximidades: O Convento Preto
A apenas uma curta distância do castelo fica o local do Convento Preto (Black Friary), um convento dominicano do século XIII. Ao contrário do castelo, está em grande parte soterrado, mas tem sido o local de um projeto de arqueologia comunitária durante anos. Os visitantes podem frequentemente ver arqueólogos a trabalhar durante o verão, desenterrando sepulturas medievais e artefactos que lançam luz sobre a vida das pessoas comuns (e dos monges) que viviam à sombra da grande fortaleza de de Lacy.
Informações para Visitantes
Trim fica no Condado de Meath, a cerca de 45 minutos a noroeste de Dublin, facilmente acessível de autocarro a partir da capital. O acesso aos jardins do castelo (o bailey) é permitido com ingresso. O acesso ao Keep é por visita guiada apenas, por razões de segurança. As visitas são excelentes, fornecendo informações sobre a vida quotidiana dos Normandos — como comiam, dormiam e usavam as latrinas (as garderobes são um ponto alto da visita). As visitas decorrem regularmente mas podem esgotar no verão, pelo que se recomenda chegar cedo. Do lado oposto do rio encontra-se o Campanário Amarelo, as ruínas da torre sineira da Abadia de Santa Maria. Com 40 metros de altura, era outrora o edifício mais alto da Irlanda medieval. A lenda diz que foi destruído pelas tropas de Cromwell para evitar que fosse usado como posto de atiradores. A sua calcário dourado brilha ao pôr do sol, dando-lhe o nome.