O Lar dos Duques da Inglaterra
No cimo de uma colina que domina o vale do Rio Arun e os South Downs além, o Castelo de Arundel é um dos castelos mais impressionantes de Inglaterra. Ao contrário de tantos outros que se reduziram a ruínas pitorescas, Arundel é ainda uma casa habitada — a residência da família Howard, os Duques de Norfolk, há mais de 850 anos. Esta continuidade é rara e preciosa, e é ela que dá ao castelo a sua atmosfera particular: não é um museu congelado no tempo, mas um lugar onde a história e a vida quotidiana coexistem.
Os Duques de Norfolk ostentam o título de Primeiros Duques de Inglaterra e exercem o cargo hereditário de Marechal-Mor do Reino (Earl Marshal), tornando-os responsáveis pela organização das grandes cerimónias de Estado — desde a coroação do monarca até à Abertura Solene do Parlamento. Este estatuto elevadíssimo colocou a família no centro da história inglesa durante séculos, frequentemente com consequências perigosas.
Da Conquista Normanda à Família Howard
A fundação do castelo data de 25 de dezembro de 1067 — apenas um ano depois da Conquista Normanda — quando Roger de Montgomery, um dos homens de confiança de Guilherme o Conquistador, ergueu uma fortaleza inicial para defender o vale do rio de eventuais invasões. Nos séculos seguintes, o castelo passou por várias famílias poderosas antes de chegar aos Howard, que o mantêm até hoje.
O Cerco da Guerra Civil
O episódio mais destrutivo da história do castelo ocorreu durante a Guerra Civil Inglesa (1642–1651). A fortaleza passou de mão em mão várias vezes — Realistas, Parlamentares, Realistas de novo —, antes de ser sitiada e capturada definitivamente pelas tropas parlamentares do general William Waller. Para impedir que voltasse a ser usada pelos Realistas, o Parlamento ordenou a sua «inabilitação» (slighting): a destruição deliberada das suas defesas. Durante décadas, ficou em estado semirreinoso, com a família a habitar apenas as alas que se mantinham de pé.
O Conde Colecionador
Uma das figuras mais fascinantes da história do castelo é Thomas Howard, 14.º Conde de Arundel (1585–1646), apelidado de «o Conde Colecionador». Viajante incansável pela Itália, reuniu uma das maiores coleções de arte e antiguidades de Inglaterra, incluindo as famosas «Pedras de Arundel» (Arundel Marbles), esculturas gregas e romanas que hoje se encontram no Museu Ashmolean de Oxford. Muito da sua coleção foi dispersado durante a guerra, mas a paixão pela arte que ele instilou na família continua viva: Arundel alberga ainda hoje obras de Van Dyck, Gainsborough e Canaletto.
A Reconstrução Vitoriana
O castelo que se visita hoje é em grande medida resultado de uma vasta campanha de restauro do século XIX. Henrique, 15.º Duque de Norfolk, contratou o arquiteto Charles Alban Buckler para reconstruir o castelo no estilo neogótico então na moda. O projeto foi uma das grandes obras arquitectónicas da era vitoriana, fundindo robustez medieval com conforto moderno: Arundel foi uma das primeiras residências senhoriais de Inglaterra a ter eletricidade, aquecimento central e elevadores.
O Interior do Castelo
Os visitantes podem percorrer uma série de salas opulentas que refletem o gosto e os recursos da família Howard ao longo dos séculos.
- A Sala dos Barões: Uma sala vasta com teto de madeira alto, construída no estilo de um grande salão medieval. As janelas de vitral narram a história da família e a sala é ainda usada para banquetes.
- A Biblioteca: Uma das salas mais belas do castelo, executada em mogno com duas galerias sobrepostas. Alberga mais de 10 000 volumes, reflexo de séculos de interesse intelectual sério da família.
- Os Quartos Reais: O Victoria Room foi preparado para a visita da Rainha Vitória e do Príncipe Alberto em 1846. O mobiliário e os cortinados de veludo vermelho foram encomendados especialmente para a ocasião real.
- A Capela Fitzalan: Uma raridade única em Inglaterra. Esta capela serve de mausoléu dos Duques de Norfolk e está fisicamente adossada à Igreja Paroquial de Arundel — mas é legalmente propriedade privada do Duque católico, separada do espaço anglicano por uma parede de vidro. É um microcosmo da divisão religiosa que marcou a história inglesa durante séculos.
Os Jardins
Os jardins de Arundel são tão extraordinários quanto o castelo. Têm sido redesenhados e expandidos nos últimos anos, tornando-se um destino por si mesmos.
- O Jardim do Conde Colecionador: Inaugurado em 2008 pelo Príncipe Carlos, este jardim formal jacobino homenageia o 14.º Conde. Apresenta pavilhões de carvalho, fontes e o Oberon's Palace, uma estrutura forrada de conchas com uma coroa flutuante ao centro.
- O Stumpery: Um jardim singular criado a partir de raízes e tocos de árvore invertidos (stumps), que formam um habitat perfeito para fetos e plantas de sombra. A atmosfera é pré-histórica e quase mágica.
- O Jardim da Cozinha: Um jardim orgânico em pleno funcionamento que produz frutos, legumes e flores para o castelo e para os seus eventos.
Eventos e Atrações
Arundel é famoso pelo seu calendário de eventos históricos. Ao longo da temporada, o castelo organiza torneios de justa medieval com cavaleiros de toda a Europa, demonstrações de combate e dias temáticos de história. A Semana Internacional de Justa em julho é o ponto alto, com combatentes de armadura completa a competir no recinto do castelo.
Dentro dos muros existe ainda um campo de críquete, muitas vezes citado como um dos locais mais bonitos de Inglaterra para este desporto tipicamente inglês. Ver um jogo com as torres do castelo como pano de fundo é uma experiência inconfundivelmente britânica.
Informações Práticas
- Época: O castelo fecha nos meses de inverno (geralmente novembro a março). Verifique sempre o horário antes de viajar.
- O Fosso: O acesso à Torre Central (Keep) implica subir uma escadaria de pedra bastante íngreme. A vista do topo compensa o esforço, mas exige alguma condição física.
- Tempo: Os jardins são extensos. Conte com pelo menos três a quatro horas para ver o interior do castelo e os jardins com calma.
- Fotografias: Permitidas nos jardins e no exterior, mas geralmente vedadas no interior para proteger os tecidos e as obras de arte.
- Acessibilidade: A maior parte dos jardins e o rés do chão do castelo são acessíveis. Porém, a Torre Central e os andares superiores (incluindo os quartos e a biblioteca) não são acessíveis a cadeiras de rodas, dada a arquitetura medieval.