O Castelo dos Sonhos e dos Pesadelos
O Castelo de Caernarfon não é apenas uma fortaleza — é uma obra-prima de guerra psicológica gravada em pedra. Quando o Rei Eduardo I de Inglaterra conquistou definitivamente o País de Gales em 1283, não queria apenas ocupar militarmente o território; queria esmagar o espírito galês sequestando a sua própria mitologia. O resultado é um dos edifícios mais intimidantes e arquitetonicamente únicos da Idade Média: um edifício que deliberadamente se parece diferente de qualquer outro castelo medieval europeu.
Ao contrário dos seus outros castelos do «Anel de Ferro» — como Conwy ou Beaumaris —, que apresentam torres redondas standard e pedra cinzenta uniforme, Caernarfon é radicalmente diferente. Apresenta torres poligonais com múltiplos ângulos e muralhas bicolores características, com camadas alternadas de calcário claro e arenito escuro. Esta foi uma escolha de design deliberada e calculada. Eduardo I estava a imitar as lendárias muralhas de Constantinopla (a atual Istambul), a capital do Império Romano do Oriente. Ao construir uma «nova Constantinopla» no País de Gales, enviava uma mensagem inequívoca: sou o novo Imperador Romano, e vocês são agora súbditos de um novo poder imperial.
A Lenda de Macsen Wledig
Eduardo escolheu este local específico na foz do Rio Seiont por causa de uma antiga lenda galesa registada no Mabinogion, conhecida como O Sonho de Macsen Wledig. Na história, um Imperador Romano chamado Macsen sonha com uma viagem por montanhas e rios até encontrar uma «grande fortaleza na foz de um rio» com torres multicoloridas e uma cadeira dourada. Quando acorda, envia os seus homens para encontrá-la, e eles descobrem-na em Caernarfon.
Ao construir um castelo multicolorido exatamente onde a lenda o situava, Eduardo I estava a reescrever a profecia galesa. Afirmava ser ele o verdadeiro herdeiro do legado romano que os Galeses veneravam. Era uma aula de propaganda medieval: usar a arquitetura para legitimar a conquista, fazer os vencidos acreditar que a sua derrota estava escrita nas suas próprias histórias.
O Nascimento do Príncipe de Gales
Caernarfon é o berço do título «Príncipe de Gales» para o herdeiro da coroa inglesa, uma tradição que permanece politicamente carregada até hoje. Em 1284, o filho de Eduardo (o futuro e trágico Rei Eduardo II) nasceu aqui no castelo. A lenda famosa diz que Eduardo I prometeu à nobreza galesa dar-lhes um príncipe «nascido no País de Gales que não falasse inglês». Apresentou então o filho recém-nascido a berregar, que de facto não falava inglês — apenas o barulho incompreensível de um bebé.
Esta tradição continuou durante séculos. O castelo acolheu duas investiduras modernas de grande destaque:
- 1911: A investidura do futuro Rei Eduardo VIII, uma cerimónia em grande medida inventada pelo político David Lloyd George para reforçar o patriotismo galês.
- 1969: A investidura do Príncipe Carlos (hoje Rei Carlos III). Foi um evento televisivo global assistido por 500 milhões de pessoas. Ocorreu, porém, durante um período de intenso nacionalismo galês. O castelo estava sob segurança reforçada devido a ameaças de bomba de grupos paramilitares, e a cerimónia foi boicotada por muitos locais. O estrado de ardósia onde a Rainha apresentou Carlos ao povo ainda se encontra no pátio interior — um monumento solitário a um dia controverso.
A Porta do Rei: Uma Zona de Morte Medieval
A entrada principal do castelo é pela Porta do Rei (King's Gate), amplamente considerada o portão mais forte e sofisticado jamais desenhado na Grã-Bretanha. Nunca foi totalmente concluída, mas mesmo no seu estado incompleto era um obstáculo aterrorizante para qualquer atacante.
Para entrar no castelo, um invasor teria de sobreviver a um corredor da morte:
- Atravessar a ponte levadiça (hoje substituída por uma ponte permanente).
- Arrombar cinco portas pesadas de madeira separadas.
- Passar por baixo de seis grades de ferro que podiam ser baixadas instantaneamente, aprisionando os soldados em pequenas zonas de morte.
- Sobreviver às aberturas no teto (murder holes), usadas para despejar pedras pesadas, água a ferver ou cal viva sobre os homens apanhados na passagem.
- Evitar flechas disparadas por seteiras a diferentes alturas em ambos os lados do corredor.
É uma maravilha da engenharia militar, concebida para garantir que quem entrasse sem autorização não saísse vivo.
A Torre da Águia
A mais impressionante das torres do castelo é a Torre da Águia (Eagle Tower). Funciona efetivamente como um castelo dentro do castelo. Tem a sua própria porta, grade de ferro e reserva de água, o que significa que mesmo que o resto do castelo caísse, o Rei podia retirar-se para aqui e resistir indefinidamente. O nome vem das três águias de pedra que coroam as suas três torretas — mais um símbolo romano a reforçar o tema imperial. No interior, podem explorar-se os aposentos reais, incluindo a pequena câmara escura onde Eduardo II terá nascido.
O Museu dos Fuzileiros Reais Galeses
Alojado em duas das torres do castelo está o museu dos Fuzileiros Reais Galeses (Royal Welsh Fusiliers), um dos regimentos mais antigos e mais condecorados do exército britânico. A entrada no museu está incluída no bilhete do castelo e é uma visita que vale a pena em si mesma. Apresenta uniformes e armas de mais de 300 anos de guerras — desde a Guerra da Independência Americana até à Primeira e Segunda Guerras Mundiais —, bem como uma secção dedicada aos poetas da Grande Guerra Siegfried Sassoon e Robert Graves, que serviram como oficiais do regimento.
As Muralhas da Cidade
Caernarfon não é apenas um castelo — é uma cidade fortiificada. Eduardo I construiu um anel de muralhas de pedra em volta da vila para proteger os colonos ingleses dos rebeldes galeses que ficaram de fora. Hoje é possível caminhar quase todo o circuito dessas muralhas. O percurso oferece vistas espetaculares do castelo de vários ângulos, bem como panoramas sobre o Estreito de Menai em direção à Ilha de Anglesey. Dá a sensação exata de como o castelo dominava a paisagem e controlava o tráfego marítimo — e de como a presença inglesa era uma afirmação constante e inescapável.
Informações Práticas
- Como Chegar: Caernarfon fica no norte do País de Gales, a cerca de 20 minutos de Bangor. Há estacionamento no Slate Quay mesmo abaixo das muralhas do castelo — é também o melhor ponto para fotografias do castelo refletido na água.
- Acessibilidade: Como muitas fortalezas medievais, Caernarfon tem muitas escadas em espiral e pisos irregulares. No entanto, obras recentes acrescentaram rampas ao Portão do Rei, tornando o pátio inferior acessível a utilizadores de cadeira de rodas.
- Tempo: Conte com pelo menos duas a três horas para explorar completamente as torres, o museu e as muralhas. O castelo é gerido pelo Cadw (patrimônio galês), pelo que os membros entram gratuitamente.