Um Sonho Mourisco no Coração da Toscana
Escondido nas florestas de carvalho de Reggello, a apenas 40 quilómetros de Florença, existe um edifício que desafia toda a lógica. O Castello di Sammezzano não se parece em nada com as villas renascentistas ou as fortalezas medievais típicas da Toscana. Em vez disso, é uma explosão psicodélica de cor, geometria e luz — uma obra-prima do estilo Revivalismo Mourisco que rivaliza com a Alhambra de Granada e com o Taj Mahal em termos de impacto visual. Com o seu caleidoscópio de estuques intricados, azulejos deslumbrantes e cúpulas arco-íris, Sammezzano é prova da obsessão de um único homem: o Marquês Ferdinando Panciatichi Ximenes d'Aragona. É amplamente considerado um dos monumentos mais belos e mais ameaçados de Itália.
Atualmente abandonado e encerrado ao público, o castelo atingiu um estatuto mítico. Existe principalmente nas fotografias de exploradores urbanos e nas memórias dos poucos afortunados que o visitaram durante as suas raras aberturas. É uma «Bela Adormecida», à espera de uma restauração que desperte a sua alma vívida.
A Visão de Ferdinando
O sítio de Sammezzano tem raízes antigas que remontam à época romana. Acolheu Carlos Magno em 780 d.C. e pertenceu à família Médici durante séculos. No entanto, o castelo que vemos hoje é inteiramente uma criação do século XIX. Em 1853, a propriedade foi herdada pelo Marquês Ferdinando Panciatichi Ximenes d'Aragona. Ferdinando era um homem do Iluminismo — cientista, político e artista que se sentia alienado pelo clima político da Itália recentemente unificada. Recolheu-se à sua propriedade e canalizou a sua frustração e o seu intelecto num projeto singular: transformar a velha villa num palácio oriental.
Durante quarenta anos (1853–1889), projetou, supervisionou e financiou a reconstrução. Contratou artesãos locais e treinou-os na arte da decoração «mourisca». Não viajou para o Oriente — a sua inspiração veio de livros e da sua própria imaginação extraordinária. Inscreveu os seus pensamentos em latim nas paredes do castelo. Uma das inscrições diz: «Non plus ultra» (Nada além disto), sinalizando a sua convicção de ter criado a obra-prima definitiva.
Após a Segunda Guerra Mundial, o castelo tornou-se um hotel e clube de golfe de luxo, recebendo celebridades e estrelas de Hollywood. Mas o negócio faliu na década de 1990. Desde então, o castelo está preso em limbo legal, leiloado várias vezes sem sucesso, entregue à decadência. Apesar do abandono, o comité de voluntários Save Sammezzano trabalha incansavelmente para sensibilizar o público e protegê-lo do vandalismo.
A Sala dos Pavões e o Resto do Paraíso
O castelo contém centenas de salas, cada uma única e decorada num estilo «oriental» específico — mourisco, árabe, indiano, espanhol. O nível de detalhe é sufocantemente belo.
A Sala dos Pavões
O espaço mais icónico é a Sala dos Pavões (Sala dei Pavoni). É uma maravilha de abóbadas em leque onde o estuque está pintado num padrão hipnótico de linhas verticais em vermelhos, azuis, verdes e dourados brilhantes, imitando as penas da cauda de um pavão. A geometria é vertiginosa. É sem dúvida a sala mais fotogénica de Itália, frequentemente usada em produções de moda e videoclipes musicais. Esta sala representa o auge da experimentação cromática que define o castelo.
A Sala Branca
Em contraste total está a Sala Branca (Sala Bianca), um salão circular de estilo marroquino dominado por estuque de renda em branco puro. A luz filtra-se por vidros coloridos na cúpula, criando padrões cambiantes nas paredes intrincadas. É um espaço de silêncio e beleza etérea, concebido para a música e a contemplação — o oposto da exuberância cromática das outras salas.
O Salão dos Lírios e as Estalactites
Outras salas apresentam muqarnas (abóbadas de estalactites) típicas da arquitetura islâmica, pavimentos de cerâmica com enigmas geométricos, e paredes inscritas com versos de Dante. A Sala dos Amantes (Sala degli Amanti) é dedicada a figuras românticas nobres como Tristão e Isolda, com os seus nomes inscritos nas paredes de renda intricada. Ferdinando concebeu o castelo como uma passagem pelo Oriente, uma manifestação física da sua fuga intelectual da realidade ocidental.
O Parque das Sequoias
Em redor do castelo estende-se um dos maiores parques históricos da Toscana (185 hectares). Ferdinando era também um botânico apaixonado. Plantou mais de 130 espécies de árvores raras e exóticas. A característica mais impressionante é a coleção de Sequoias Gigantes (Sequoiadendron giganteum) importadas da Califórnia em meados do século XIX. Hoje é o maior grupo de sequoias gigantes de Itália, com a «Sequoia Gémea» a atingir mais de 50 metros de altura. O parque, ao contrário do castelo, é geralmente acessível a caminhantes, oferecendo vislumbres da fachada do castelo entre os troncos imensos.
O Fantasma do Marquês
As lendas locais dizem que Ferdinando nunca abandonou realmente o castelo. A sua presença é fortemente sentida nas salas vazias. Diz-se que vagueia pelos corredores desertos, furioso com o abandono da sua obra-prima. Alguns intrusos afirmam ouvir passos a ecoar no salão de baile vazio, ou ver sombras a mover-se na Sala dos Pavões. As inscrições latinas nas paredes, frequentemente críticas da política e da sociedade italiana, aumentam a sensação de que o Marquês ainda fala aos visitantes do outro lado da eternidade.
A Inscrição nas Paredes
Uma das características mais fascinantes de Sammezzano é que Ferdinando não se limitou a construir — escreveu. Por toda a propriedade há inscrições latinas, italianas e árabes que o Marquês selecionou ou compôs para expressar as suas convicções filosóficas. Algumas são aforismos clássicos; outras são críticas veladas aos políticos da sua época que ele desprezava. Há também dedicatórias a amigos e a figuras históricas que admirava. Juntas, estas inscrições transformam o castelo numa espécie de diário arquitetónico — um autorretrato de um homem que usou pedra, estuque e tinta para dizer o que não podia dizer em público. Ler as paredes de Sammezzano é conversar com o fantasma do Marquês de uma forma que nenhum outro castelo italiano permite.
Informações Práticas
Estado Atual: Encerrado
Aviso importante: O Castello di Sammezzano é propriedade privada e está estritamente vedado ao público. Está sob vigilância. Entrar sem autorização é ilegal e perigoso, dado o estado de deterioração de algumas estruturas.
Como Ver o Castelo
Embora não se possa entrar no castelo, é possível caminhar no parque circundante. O Sentiero delle Sequoie (Trilho das Sequoias) permite caminhar entre as árvores gigantes e aproximar-se do exterior do castelo para admirar a sua fachada única. A aldeia de Leccio (parte de Reggello) é o ponto de partida.
Esperança para o Futuro
Ocasionalmente, o comité Save Sammezzano ou os proprietários organizam dias de abertura especiais (por exemplo, os Giorni FAI di Primavera), mas são raros e os bilhetes esgotam em segundos. Recomenda-se fortemente seguir as redes sociais de Save Sammezzano para qualquer atualização sobre restauro ou visitas especiais. Até lá, permanece como um sonho de lista de desejos para milhões de pessoas — uma joia escondida à espera de ser polida.