A Joia do Príncipe
Flutuando sobre um vasto lago artificial em meio a uma floresta a norte de Paris, o Château de Chantilly é uma das joias mais brilhantes do património francês — e permanece surpreendentemente menos lotado do que Versalhes ou Fontainebleau. É um erro que qualquer viajante deve evitar, porque Chantilly oferece uma ameaça tripla: um magnifico castelo de conto de fadas, a melhor coleção de pinturas de França fora do Louvre, e os estábulos mais grandiosos de toda a Europa. É a obra-prima pessoal de um único homem: Henri d'Orléans, Duque de Aumale.
Uma Fênix das Cinzas
A propriedade tem uma longa história que remonta à Idade Média. Pertenceu às poderosas famílias Montmorency e mais tarde Condé, primos dos Reis de França. O «Grande Condé» (Luís II) fez de Chantilly uma rival de Versalhes, organizando festas que deslumbraram a Europa. Mas a Revolução Francesa não foi gentil com Chantilly. O castelo principal (o Grand Château) foi arrasado até ao chão, deixando apenas o pequeno Petit Château (construído em 1560) e os estábulos de pé.
Entra então Henri d'Orléans, Duque de Aumale (1822–1897). O quinto filho do Rei Luís Filipe, herdou a propriedade aos oito anos de idade. Após anos de exílio em Inglaterra na sequência da Revolução de 1848, regressou a França viúvo e sem filhos, com uma imensa fortuna e uma obsessão: reconstruir Chantilly. Entre 1875 e 1885, construiu o atual Grand Château sobre as antigas fundações. Não o concebeu como uma residência familiar — a sua família já não existia —, mas como um museu para alojar a sua incrível coleção de arte e livros.
O Musée Condé: O Sonho de um Amante de Arte
Ao morrer, o Duque legou toda a propriedade ao Institut de France com condições estritas: nada podia ser vendido, nada podia ser emprestado e — crucialmente — o arranjo das pinturas nunca poderia ser alterado. Isto significa que ao visitar o Musée Condé hoje, vê-se as galerias exatamente como estavam no século XIX.
As paredes estão repletas, no estilo de salão, de obras-primas penduradas moldura a moldura. Esta experiência imersiva é completamente diferente do que se vive nos museus modernos: está-se rodeado de arte por todos os lados. Na Rotunda, que guarda as obras-primas do Renascimento italiano, encontram-se:
- Três pinturas de Rafael (incluindo as «Três Graças»).
- Obras de Botticelli, Ticiano e Poussin.
- Uma coleção deslumbrante de arte romântica francesa de Delacroix e Ingres.
Como estas obras não podem ser emprestadas a outros museus, se quiser vê-las, tem de ir a Chantilly.
A Biblioteca
O Duque era também o maior bibliófilo do seu tempo. A Sala de Leitura (Cabinet des Livres) é de tirar o fôlego, com 19 000 volumes incluindo 1 500 manuscritos. O tesouro mais famoso é as Très Riches Heures du Duc de Berry, considerado o manuscrito iluminado mais belo do mundo. Devido à sua fragilidade extrema, é geralmente exposta uma reprodução fac-símile.
Os Grandes Estábulos
Se o castelo é um palácio para a arte, o edifício exterior é um palácio para os cavalos. Construídos no século XVIII por Luís Henrique de Bourbon (o 7.º Príncipe de Condé), os Grandes Estábulos são uma obra-prima da arquitetura do século XVIII. O Príncipe acreditava firmemente na reencarnação e estava convicto de que voltaria como cavalo, por isso construiu estábulos dignos de um rei-cavalo.
O edifício é colossal — 186 metros de comprimento — e apresenta uma cúpula central de 28 metros de altura. Podia originalmente albergar 240 cavalos e 500 cães de caça. Hoje é o lar do Museu do Cavalo e de uma companhia de artistas equestres que realizam demonstrações diárias de dressage e espetáculos espetaculares sob a cúpula. Os cavalos aqui são tratados como realeza.
Os Jardins
O parque de Chantilly é único porque combina três estilos distintos:
- O Jardim Francês: Desenhado por André Le Nôtre (o mesmo de Versalhes) no século XVII. Apresenta vastos espelhos de água, fontes e o Grande Canal, que é na realidade mais longo do que o de Versalhes.
- O Jardim Anglo-Chinês: Um jardim rústico e sinuoso com um «Hameau» (aldeia) de cabanas de camponeses simuladas. Esta aldeia inspirou na verdade Maria Antonieta a construir o seu próprio Hameau em Versalhes.
- O Jardim Inglês: Uma paisagem romântica com um Templo de Vénus e uma Ilha do Amor.
O Berço do Chantilly
Não se pode visitar Chantilly sem provar a Crème Chantilly. A lenda afirma que foi inventada aqui pelo famoso maître d'hôtel François Vatel em 1671, durante um banquete para Luís XIV. Vatel é uma figura trágica na história culinária. Nesse mesmo banquete, temendo que a entrega de peixe não chegasse a tempo, suicidou-se, passando a espada pelo próprio corpo. (O peixe chegou momentos depois.) Hoje, pode saborear-se Crème Chantilly autêntica — batida à mão com baunilha e açúcar em pó — no restaurante da aldeia ou na «La Capitainerie» nas antigas cozinhas do castelo.
Corridas e o Hipódromo
O amor da casa pelos cavalos não se limita aos estábulos. O Hipódromo de Chantilly, situado mesmo ao lado da propriedade, é um dos mais belos e prestigiados de França. Fundado em 1834 pelo Duque de Bourbon, acolhe anualmente o Prix du Jockey Club (o equivalente francês do Epsom Derby, em junho) e o Prix de Diane (o equivalente francês do Oaks). O Prix de Diane em particular é um evento social de primeira grandeza, onde a alta sociedade parisiense aparece com toilettes extravagantes e chapéus elaborados. Os dois eventos, as coleções de arte do Musée Condé, os espetáculos dos estábulos e a gastronomia local criaram um ecossistema cultural único em torno da cidade que mantém Chantilly como destino de peregrinação para quem aprecia o belo em todas as suas formas.
Informações Práticas
Chantilly fica no departamento do Oise, a cerca de 50 km a norte de Paris.
- Como Chegar: Comboio a partir da Gare du Nord para Chantilly-Gouvieux (cerca de 25 minutos). Da estação, pode-se apanhar um autocarro gratuito ou fazer uma caminhada de 20 minutos pela floresta.
- Bilhetes: Um «Bilhete do Domínio» cobre o château, os jardins e os estábulos e oferece um excelente valor.
- Espetáculos Equestres: Os espetáculos nos estábulos são muito populares e requerem bilhete separado ou combinado. Recomenda-se reservar com antecedência.
- Events: Chantilly acolhe o Prix de Diane, uma das corridas de cavalos mais prestigiadas do mundo, no hipódromo adjacente todos os meses de junho. É um dia de alta moda e chapéus elaborados.