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Castelo de Glamis

Castelo de Glamis

📍 Glamis, Angus, Escócia 📅 Construído em Século XIV (reconstruído no século XVII)

Entre a Lenda e a História

Há castelos históricos, e depois há o Castelo de Glamis. Na paisagem suave de Angus, encerrado por avenidas centenárias de lindes e carvalhos, ergue-se um dos edifícios mais carregados de história, lenda e mistério da Escócia. As suas torres de pedra cinzenta sobem irregularmente contra o céu escocês, as ameias e torreões criando uma silhueta que parece simultaneamente medieval e fantasmagórica. É um castelo que parece guardar segredos — e, de facto, guarda.

Glamis é, ao mesmo tempo, muitas coisas: o lar ancestral dos Condes de Strathmore, uma das mais antigas famílias nobres da Escócia; o cenário da mais famosa tragédia de Shakespeare; o lar de infância da mulher que se tornaria Rainha-Mãe; o lugar de nascimento de uma princesa; e, para aqueles que acreditam nestas coisas, um dos locais mais genuinamente assombrados da Grã-Bretanha. Poucas propriedades europeias conseguem rivalizar com a densidade de história e lenda por metro quadrado que Glamis oferece.

Macbeth: A Sombra do Rei

O primeiro episódio histórico associado a Glamis é simultaneamente o mais famoso e o mais incerto. Segundo a tradição escocesa, foi aqui que o Rei Duncan I foi assassinado pelo seu primo Macbeth em 1040. William Shakespeare, ao escrever a sua tragédia Macbeth no início do século XVII, fixou esta associação na imaginação do mundo anglófono: «Glamis thou art» diz Lady Macbeth, com um estremecimento de ambição, ao ler a carta do marido sobre a profecia das bruxas.

Historiadores modernos questionam se o assassínio de Duncan ocorreu de facto em Glamis — as fontes medievais são contraditórias, e o próprio Macbeth pode não ter sido o vilão que Shakespeare retratou, mas antes um rei competente que governou a Escócia com relativa estabilidade por dezassete anos. Mas a associação literária é indelével. Quando um visitante sobe as escadadas do castelo, a memória da peça está sempre presente, conferindo a cada corredor sombrio e a cada sala de teto baixo uma dimensão dramática que nenhuma outra propriedade escocesa pode igualar.

Janet Douglas e o Julgamento das Bruxas

Um dos episódios mais sombrios da história real de Glamis ocorreu em 1537. Lady Janet Douglas, viúva do 6.º Senhor de Glamis, foi acusada pelo Rei Jaime V de ter tentado envenenar o monarca por bruxaria. A acusação era, quase certamente, política: Jaime V tinha um ódio profundo pelos Douglas, a família mais poderosa da Escócia, e usou os tribunais como arma contra eles.

Janet foi torturada na Torre de Edimburgo até confessar crimes que provavelmente nunca cometeu. Em julho de 1537, foi queimada viva no Castelo de Edimburgo, perante uma multidão de espectadores. O seu filho, que tinha sido obrigado a assistir à execução da mãe, foi poupado. Glamis foi confiscado pelo Rei, e o castelo permaneceu na posse da Coroa durante anos.

Diz-se que o espírito de Lady Janet — a Dama Cinzenta — ainda assombra a chapel do castelo. Visitantes relatam uma presença feminina na galeria da chapel, uma figura silenciosa que parece rezar antes de desaparecer. A chapel em si, com os seus vitrais pintados dos séculos XVII e XVIII e os seus bancos de carvalho escurecido, tem uma atmosfera que convida a estas percepções.

O Conde Barba com Barba: A Lenda do Quarto Secreto

A lenda mais perturbadora de Glamis é a do Conde Barba com Barba — ou, em versões diferentes, do quarto monstruoso. Segundo a tradição, em algum lugar do castelo existe um quarto secreto onde o 4.º Conde de Strathmore fez um pacto com o diabo enquanto jogava às cartas na noite de sábado — violando o sábado e vendendo a alma em troca de poderes infernais. Quando o Conde morreu, foi condenado a jogar para sempre nesse quarto oculto, e o seu espírito ainda permanece ali, uma presença barulhenta cujos gritos ocasionalmente perturbam as noites de Glamis.

Uma variante mais perturbadora da lenda fala de um membro da família nascido em algum momento do século XIX com deformidades tão extremas que foi escondido do mundo numa câmara secreta do castelo, onde viveu durante décadas sem nunca ser visto. Este suposto «Monstro de Glamis» tornou-se um dos segredos mais comentados da aristocracia vitoriana. Nenhuma prova concreta deste «monstro» foi jamais encontrada, mas a lenda persiste com uma tenacidade notável, alimentada por referências oblíquas nas memórias e correspondência da época.

O fascínio pelo quarto secreto tomou formas concretas: diz-se que num determinado ponto do século XIX, os hóspedes do castelo penduraram toalhas nas janelas externas de todos os quartos conhecidos e depois circularam pelo exterior tentando identificar janelas sem toalha — a presumida localização do quarto escondido. Teriam encontrado várias janelas inexplicáveis. Os proprietários do castelo sempre negaram a existência de câmaras secretas, o que, naturalmente, não convenceu ninguém.

A Rainha-Mãe e a Princesa Margarida

Em contraste com estas histórias sombrias, Glamis também é um lugar de memórias familiares felizes para a família real britânica. Isabel Bowes-Lyon, filha do 14.º Conde de Strathmore e Kinghorne, cresceu em Glamis nas primeiras décadas do século XX. As suas memórias de infância no castelo — os jardins, as salas enormes, os verões escoceses — formaram uma parte importante da sua personalidade e do seu afeto pelo país. Em 1923, casou com o Príncipe Alberto, Duque de Iorque, segundo filho do Rei Jorge V. Quando o cunhado abdicou em 1936, Alberto tornou-se o Rei Jorge VI, e Isabel tornou-se Rainha — e depois, durante décadas, a amada Rainha-Mãe.

Em 21 de agosto de 1930, Glamis foi palco de um nascimento histórico: a Princesa Margarida Rosa, segunda filha do Príncipe Alberto e de Isabel, nasceu no castelo. Foi a última vez que um membro da família real britânica nasceu na Escócia. A sala onde decorreu o nascimento é mostrada aos visitantes, um espaço que alia a grandiosidade histórica de Glamis às memórias mais pessoais da mais popular das famílias reais do século XX.

A Arquitetura: Torres que Cresceram com a História

O castelo que vemos hoje é principalmente uma construção do século XVII, mas assenta sobre estruturas medievais muito mais antigas. A Torre Principal, no coração do complexo, data do século XIV e XV. No final do século XVII, Patrick Lyon, 1.º Conde de Strathmore e Kinghorne, empreendeu uma vasta reconstrução e expansão que deu ao castelo a sua forma essencial atual: um corpo central alto flanqueado por torres mais baixas, com uma fachada que combina janelas ornamentadas do Renascimento escocês com defensas medievais.

O interior é uma mistura fascinante de períodos. A Sala Vermelha Duncan, assim chamada em referência ao rei shakespeariano (não obstante a dúvida histórica sobre o local do assassínio), tem um teto em estuque decorado do século XVII de extraordinária qualidade. O Grande Salão, com a sua lareira monumental e os seus retratos de ancestrais, evoca os banquetes e as cerimônias que marcaram a vida da família ao longo de séculos. A chapel particular, com os seus vitrais do século XVII pintados por Burne-Jones (discípulo de William Morris), é uma das mais belas salas do castelo.

Os Jardins Italianos

Em torno do castelo estendem-se jardins históricos que oferecem um refúgio de tranquilidade após a intensidade das lendas interiores. O jardim italiano, criado no início do século XX, apresenta um parterre de buxo com o emblema heráldico da família, cercado por estátuas e sebes recortadas. O jardim de legumes histórico, restaurado recentemente, é um raro exemplo de horticultura produtiva vitoriana ainda em funcionamento. As avenidas de tília que ligam o castelo às estradas circundantes são algumas das mais imponentes da Escócia, criando uma entrada teatral que prepara o visitante para o drama do castelo no seu fim.

Informações Práticas

O Castelo de Glamis fica a poucos quilómetros da cidade de Forfar, em Angus, acessível de carro a partir de Dundee ou Perth. O castelo está aberto ao público de março a dezembro, com visitas guiadas ao interior e acesso livre aos jardins. Recomenda-se visitar no final do verão, quando os jardins estão em plena floração e os dias mais longos permitem apreciar a paisagem com melhor luz. Para os entusiastas do sobrenatural, as visitas noturnas especiais organizadas em outubro são particularmente populares — embora a lista de espera possa ser longa.