O Castelo dos Condes
No meio da animada e moderna cidade de Ghent, rodeado de eléctricos, lojas e canais, ergue-se uma fortaleza que parece ter sido depositada diretamente do século XII. Este é o Gravensteen — que em neerlandês significa literalmente «Castelo dos Condes». Com as suas altas muralhas de calcário cinzento, a sua imponente torre de porta e o seu fosso cheio de água, é a imagem quintessencial de uma fortaleza medieval. Ao contrário de muitos castelos encravados em paisagens rurais remotas, o Gravensteen é uma fortaleza urbana, construída não apenas para defender contra invasores estrangeiros, mas para intimidar os próprios cidadãos de Ghent.
A sua sobrevivência é quase milagrosa. A maioria dos castelos urbanos europeus foi demolida à medida que as cidades cresciam, mas o Gravensteen resistiu — a fábricas, a planos imobiliários, a séculos de negligência. Hoje oferece uma experiência visceral da Idade Média, despojada de romantismo. O castelo é frio, duro e intimidante — exatamente como foi concebido para ser. Constitui um contraste chocante com as elegantes guildas e igrejas que bordejam os canais do resto da cidade.
História: Poder e Indústria
O castelo atual foi construído em 1180 por Filipe da Alsácia, Conde de Flandres. Filipe regressara recentemente da Segunda Cruzada, e a influência dos castelos cruzados que viu na Síria — especialmente o Krak dos Cavaleiros — é evidente no design. Filipe queria afirmar a sua autoridade sobre os ricos e rebeldes mercadores de Ghent. A inscrição original sobre a entrada dizia: «Quem construiu esta casa chama-se Filipe, Conde de Flandres...» — um lembrete claro de quem mandava.
Durante séculos, o Gravensteen foi a sede dos Condes. No entanto, no século XIV, estes abandonaram-no em favor de alojamentos mais confortáveis. O castelo assumiu então um papel mais sombrio como tribunal e prisão — palco de tortura e execução de criminosos e hereges. No século XIX, durante a Revolução Industrial, sofreu uma indignidade comum a muitos edifícios históricos: foi vendido a um industrial e transformado numa fábrica de algodão. Habitação operária foi construída no pátio, e o fumo das máquinas enegreceu as pedras das muralhas. Esteve quase a ser demolido para dar lugar a um empreendimento imobiliário, mas a cidade de Ghent comprou-o em 1885 e iniciou uma vasta restauração para devolver-lhe o aspecto de 1180.
Arquitetura: A Visão de um Cruzado
O Gravensteen é um exemplo clássico do castelo com mota e recinto, embora a mota seja elevada e reforçada em pedra. A Torre Central (Donjon) é o coração do conjunto, com três pisos, e alberga a Grande Sala onde os Condes realizavam os seus banquetes, e os aposentos privados do senhor feudal. A arquitetura é robusta e funcional, com seteiras em forma de cruz e pesadas portas de carvalho.
A entrada faz-se através de uma torre-porta fortificada com mísulas — aberturas que permitiam lançar pedras ou óleo fervente sobre os atacantes. A muralha exterior de forma oval apresenta 24 guaritas salientes e um caminho de ronda que permite aos visitantes circular pelo perímetro completo do castelo. Este percurso oferece uma das mais belas vistas panorâmicas de Ghent, com as três torres icónicas da cidade em segundo plano: a Igreja de São Nicolau, o Belfort e a Catedral de São Bavão.
O Museu de Tortura: Uma Verdade Desconfortável
O Gravensteen é famoso — ou infame — pelo seu Museu de Objetos Judiciais, instalado na antiga despensa e nas masmorras. A coleção reúne instrumentos de tortura autênticos utilizados em Ghent até ao século XVIII: a guilhotina, o cavalete, os parafusos de polegar, a «máscara da vergonha». É um lembrete sombrio mas fascinante do sistema jurídico medieval, em que a confissão era frequentemente extraída pela dor.
A exposição não apresenta estes objetos de forma sensacionalista, mas com contexto histórico que convida à reflexão. Os visitantes confrontam-se com a realidade brutal de como as sociedades do passado entendiam a justiça, a punição e a prova — e são forçados a considerar em que medida os valores contemporâneos representam realmente um progresso. O museu é perturbador, mas essa perturbação é precisamente o seu valor pedagógico.
Lendas: A Batalha dos Dourados Esporões
A história do Gravensteen está intimamente ligada à famosa Batalha dos Dourados Esporões de 1302. Embora o confronto em si tenha ocorrido em Kortrijk, o castelo representava o poder feudal contra o qual os artesãos e comerciantes flamengos se rebelaram. Quando os cavaleiros franceses que tinham sido derrotados pelos peões flamengos deixaram para trás os seus dourados esporões de cavaleiro — a insígnia do seu estatuto nobre — estes foram expostos como troféu na Igreja de Nossa Senhora de Kortrijk. O Gravensteen incorporava exactamente o tipo de poder feudal arrogante que os flamengos tinham conseguido derrotar.
Uma história mais recente e deliciosamente absurda ocorreu em 1949: o castelo foi «conquistado» por estudantes universitários que protestavam contra o preço da cerveja. Barricados dentro dos muros medievais, estes rebeldes modernos bombardearam a polícia com frutas podres. A façanha tornou-se lendária — celebrada como um momento de irreverência juvenil contra a autoridade — e foi recentemente recordada com comemorações especiais.
O Natal no Castelo
Durante o período natalício, o Gravensteen transforma-se no Castelo de Inverno Maravilhoso. Decorado com luzes e música festiva, com atores vestidos de cavaleiros e damas a percorrer as salas, o castelo adquire uma atmosfera completamente diferente — mais quente e mágica do que a sua presença habitual de fortaleza sombria. Esta transformação sazonal é uma das atrações mais populares de Ghent no inverno, oferecendo uma perspetiva inesperada sobre a pedra austera.
A Vista das Ameias
O caminho de ronda sobre as muralhas é um dos momentos mais memoráveis de uma visita a Ghent. A partir das ameias, o visitante avista as três torres icónicas da cidade — São Nicolau, o Belfort e São Bavão — dispostas numa linha perfeita sobre os telhados dos séculos XVII e XVIII. É uma perspectiva que os fotógrafos procuram incessantemente, e compreende-se porquê: a coexistência do castelo medieval com a cidade viva que o envolve raramente se captura com tanta clareza como daqui em cima.
Informações Práticas
O Gravensteen fica na Sint-Veerleplein 11, no centro histórico de Ghent, acessível a pé ou de eléctrico (paragem «Gravensteen»). A visita é autoguiada, com um guia áudio em vários idiomas narrado com humor pelo comediante flamengo Wouter Deprez. O castelo está aberto diariamente das 10h às 18h, com última entrada às 16h40. Atenção: a acessibilidade para cadeiras de rodas é limitada devido às íngremes escadas em espiral medievais, embora esteja disponível uma visita virtual para quem não possa subir as escadas.