A Pérola Branca da Boémia do Sul
Emergindo das florestas exuberantes da Boémia do Sul como uma ilustração de conto de fadas, o Castelo de Hluboká é amplamente considerado o castelo mais belo e romântico da República Checa. Com a sua fachada branca como a neve, as suas torres ameadas e os seus jardins impecavelmente cuidados, parece mais uma residência real inglesa do que uma fortaleza da Europa Central. E não é por acaso: é frequentemente chamado o «Windsor Checo» porque a sua reconstrução oitocentista foi diretamente inspirada no Castelo de Windsor em Inglaterra. É um monumento à imensa riqueza, poder e anglofilia da família Schwarzenberg, uma das mais influentes dinastias nobres da história europeia.
Ao contrário dos castelos rudes e defensivos da Idade Média, Hluboká é um palácio concebido para o luxo, a representação e a prática nobre da caça. Cada centímetro dos seus 140 aposentos está decorado com uma riqueza quase esmagadora, tornando-o um dos monumentos culturais mais visitados do país.
História: De Guardião a Palácio
A história do local remonta a meados do século XIII, quando o Rei Otacaro II da Boémia mandou construir um castelo gótico para guardar as rotas comerciais do Rio Vltava. Durante séculos, passou por mãos reais e nobres, sofrendo modificações renascentistas e barrocas. O momento definidor chegou em 1661, quando a propriedade foi comprada por Jan Adolf I von Schwarzenberg.
O castelo que vemos hoje é a visão do Príncipe Jan Adolf II von Schwarzenberg e da sua esposa, a Princesa Eleonore. Em 1838, o casal assistiu à coroação da Rainha Vitória em Londres e visitou o Castelo de Windsor. A Princesa Eleonore ficou encantada. De regresso, ordenaram uma reconstrução completa da sua casa ancestral no estilo Neo-Gótico Romântico. O projeto durou de 1840 a 1871, empregando os melhores arquitetos vienenses. A família habitou o castelo até 1939, quando o último proprietário, Adolph Schwarzenberg, fugiu dos nazis. O castelo foi confiscado pela Gestapo e posteriormente nacionalizado pelo Estado checoslovaco em 1947.
O Interior: Uma Fantasia Neo-Gótica
A visita ao interior oferece um vislumbre do luxo estonteante da aristocracia do século XIX. As paredes e tetos estão cobertos de intrincados painéis e artesonados de madeira escura, esculpidos por artesãos locais com uma qualidade tão elevada que parecem renda. A Escadaria Principal é uma obra-prima de carpintaria. A Biblioteca contém 12 000 volumes e uma enorme lareira. O Salão da Manhã está decorado com raras tapeçarias de Bruxelas. A Armaria exibe uma vasta coleção de armas e armaduras, refletindo a história militar da família.
A característica mais única é o motivo ubíquo da «Cabeça de Turco». O brasão dos Schwarzenberg apresenta um corvo a bicar os olhos de uma cabeça de turco decapitada (comemorando uma vitória contra os Otomanos em 1598). Este símbolo macabro aparece em tudo, desde as maçanetas das portas às janelas de vitral — um contraste chocante com a arquitetura romântica que o envolve.
As Cozinhas: Uma Maravilha da Engenharia
Um dos pontos altos para muitos visitantes são as cozinhas do castelo, localizadas nas caves. Eram uma maravilha tecnológica da sua época: um mecanismo monumental de espeto rotativo impulsionado pelo calor ascendente da chaminé, enormes tachos de cobre e até uma máquina de descascar batatas. Ilustram a escala logística necessária para alimentar a corte principesca e os seus centenas de convidados durante a época de caça.
O Parque Inglês e a Escola de Equitação
Em torno do castelo estende-se um vasto parque paisagista de estilo inglês, meticulosamente desenhado para complementar a arquitectura Neo-Gótica. Abrange quase 200 hectares, com árvores exóticas, canteiros simétricos de flores e caminhos sinuosos perfeitos para passeios românticos. O parque foi desenhado para criar perspetivas cénicas, com o castelo branco a refletir-se nas lagoas circundantes.
Dentro do parque encontra-se a antiga Escola de Equitação de Inverno, utilizada para treino equestre durante os meses frios. Hoje alberga a Galeria da Boémia do Sul, com uma impressionante coleção de arte gótica da Boémia e mestres flamengos do século XVII.
A Lenda do Espelho da Juventude Eterna
No quarto do castelo existe um espelho bonito com moldura ornamentada. Segundo a lenda, qualquer mulher que se olhe neste espelho conservará a sua beleza e juventude para sempre. Contudo, há uma condição (como sempre nas lendas): se o fizer com inveja ou vaidade no coração, envelhecerá rapidamente no prazo de um ano. Diz-se que a própria Princesa Eleonore usava este espelho, o que explicaria a sua lendária elegância.
A Família Schwarzenberg e o Destino do Castelo
A história da família Schwarzenberg é indissociável do destino do castelo. Os Schwarzenberg foram durante séculos uma das famílias aristocráticas mais poderosas e influentes da Europa Central, com propriedades em vários países e membros que serviam nas mais altas esferas da diplomacia, da Igreja e do exército. A sua decisão de reconstruir Hluboká no estilo Neo-Gótico não foi apenas um capricho estético: foi uma declaração política de poder e identidade numa época em que o movimento nacional checo começava a agitar-se contra o domínio dos Habsburgo. Ao apresentar-se como guardiões de um castelo de aparência inglesa — evocando a tradição parlamentar e constitucional britânica — os Schwarzenberg posicionavam-se como aristocratas modernos e progressistas. A confiscação do castelo em 1947, após a fuga do último proprietário dos nazis e a subsequente chegada do regime comunista, truncou abruptamente uma história de seis séculos de presença familiar. Adolph Schwarzenberg, que tinha doado parte das suas propriedades aos refugiados durante a guerra, morreu nos Estados Unidos em 1950 sem nunca ter recuperado Hluboká. A família só regressou à cena pública checa depois de 1989, com a restauração da democracia.
Informações Práticas
Hluboká nad Vltavou fica a cerca de 10 km a norte de České Budějovice (famosa pela sua cerveja Budweiser) e a aproximadamente 150 km a sul de Praga. É facilmente acessível de autocarro ou comboio desde České Budějovice. Para quem chega de carro, existem parques de estacionamento no sopé da colina, com um pequeno comboio turístico ou uma caminhada íngreme de 15 minutos até às portas do castelo. O castelo está aberto durante todo o ano (exceto às segundas-feiras e alguns feriados), com horário reduzido no inverno. Estão disponíveis vários circuitos de visita guiada, incluindo as salas de representação, os aposentos privados, as cozinhas e a subida à torre.