O Versalhes do Báltico
Nas planícies planas e tranquilas do sul da Letónia, rodeado por quilómetros de campos agrícolas, um milagre arquitetónico ergue-se da terra. O Palácio de Rundāle (Rundāles pils) não é apenas um edifício; é um ponto de exclamação na paisagem. Frequentemente chamado o «Versalhes do Báltico», é um dos melhores exemplos de arquitetura barroca e rococó do Norte da Europa. Com a sua fachada amarela e branca, os extensos jardins franceses e os interiores lavishly decorados, parece ter sido colocado por magia nas planicies letãs a partir das cortes de Paris ou São Petersburgo.
Esta foi a residência de verão dos Duques de Curlândia, um lugar construído para o prazer, a pompa e o poder. Após ter sobrevivido a guerras, revoluções e décadas de abandono, foi meticulosamente restaurado ao seu esplendor original, permitindo aos visitantes recuar ao século XVIII dourado.
O Duque e o Arquiteto
A história de Rundāle é a história de dois homens ambiciosos: Ernst Johann von Biron, o Duque de Curlândia, e Francesco Bartolomeo Rastrelli, o genial arquiteto italiano que definiu o Barroco russo. Biron era favorito da Imperatriz Russa Ana Ioanovna, e a sua ascensão ao poder foi meteórica. Para consolidar o seu estatuto, encomendou a Rastrelli — que mais tarde projetaria o Palácio de Inverno em São Petersburgo — a construção de uma residência de verão. As obras começaram em 1736.
Contudo, a história tinha outros planos. Em 1740, a Imperatriz Ana morreu e Biron foi preso e exilado para a Sibéria. O palácio ficou por terminar e vazio durante mais de 20 anos. Só quando Catarina a Grande reinstituiu Biron em 1762 é que as obras foram retomadas. Entretanto, os gostos tinham mudado: o Barroco pesado da era anterior cedeu lugar ao mais leve e lúdico Rococó. Esta interrupção é o que confere a Rundāle o seu carácter único: uma casca barroca com um coração rococó.
Uma Visita pelos Salões Dourados
O palácio tem 138 aposentos distribuídos por dois andares. O trabalho de restauro, liderado durante décadas pelo lendário historiador de arte Imants Lancmanis, é nada menos do que miraculoso. Cada detalhe, desde o papel de seda às luminárias de cristal, foi recriado ou restaurado.
O Salão Dourado
A Sala do Trono, conhecida como o Salão Dourado, é a peça de resistência. É um frenesim de estuque dourado e mármore falso (scagliola), criado pelo escultor alemão Johann Michael Graff. O tecto está pintado com uma cena alegórica que glorifica as virtudes do Duque. É fácil imaginar o farfalhar dos vestidos de seda e o murmúrio dos cortesãos enquanto o Duque, sentado no seu trono, recebia embaixadores estrangeiros.
O Salão Branco
Em vivo contraste com o Salão Dourado, o Salão Branco era a sala de baile. Foi concebido para ser leve e arejado, com grandes janelas e decorações de estuque branco representando cenas pastoris. Os relevos mostram crianças a brincar, a colher e a fazer música — um fundo de fantasia para os elaborados bailes aqui realizados.
A Sala das Rosas
Um dos aposentos mais únicos é a Sala das Rosas. As grinaldas de estuque nas paredes apresentam flores de porcelana pintadas, criando um jardim que floresce durante todo o ano. Este aposento era dedicado à deusa Flora e celebra a beleza da natureza, um tema que conecta o palácio aos jardins no exterior.
O Jardim Francês
Nenhum palácio barroco está completo sem um jardim formal, e o de Rundāle é uma obra-prima. Desenhado pelo próprio Rastrelli, é o jardim francês mais significativo dos países bálticos, cobrindo 10 hectares e apresentando uma intrincada rede de caminhos, bosquetes e pérgulas. O destaque é o Jardim das Rosas, que alberga mais de 2 000 variedades, incluindo cultivares históricos que teriam sido cultivados no tempo do Duque. O «Teatro Verde», um anfiteatro feito de sebes aparadas, ainda é utilizado para concertos e óperas no verão.
Os Dias Mais Sombrios
A história de Rundāle nem sempre foi de bailes e rosas. Após a absorção do Ducado de Curlândia pelo Império Russo em 1795, o palácio passou para as famílias Zubov e Shuvalov. Durante a Primeira Guerra Mundial, foi utilizado como hospital e escritório do comandante pelo exército alemão. Em 1919, durante a Guerra de Independência Letã, sofreu danos significativos. Sob o domínio soviético, o palácio foi usado como armazém de cereais e escola local. Os magníficos salões foram divididos com paredes, o ginásio foi instalado no Salão Branco e os preciosos soalhos de parquet foram danificados. Só quando o Museu do Palácio de Rundāle foi estabelecido em 1972 começou o longo e lento processo de cura do edifício — uma restauração que continua até hoje e que é considerada um dos maiores feitos da museologia europeia contemporânea.
A Restauração: Um Projeto de Vida
A história da restauração de Rundāle é tão fascinante quanto a história do próprio palácio. Quando Imants Lancmanis assumiu a direção do museu em 1972, o edifício estava em estado deplorável: os soalhos tinham apodrecido, os tetos de estuque tinham desabado em partes, as pinturas murais estavam cobertas de cal e os salões serviam de armazém. Durante mais de quarenta anos, Lancmanis dedicou a vida a este projeto com uma tenacidade extraordinária. Estudou arquivos em Moscovo, Riga, Berlim e Paris para reconstituir os esquemas de cor originais e os padrões dos tecidos. Treinou equipas de restauradores em técnicas de estuque e pintura de trompe-l'œil que estavam praticamente extintas. Cada aposento restaurado era apresentado ao público como uma pequena vitória, financiada primeiro pelo Estado soviético (que valorizava o museu pelo seu apelo turístico) e depois pelo Estado letão independente. O resultado final é um dos palaces mais meticulosamente restaurados da Europa — não uma recriação fantasiosa, mas uma reconstituição apoiada em documentação histórica exaustiva que seria digna da aprovação do próprio Rastrelli.
Lendas e Informações Práticas
O palácio tem os seus fantasmas: a «Dama Branca», filha de um médico que se apaixonou por um nobre e foi emuredada viva nas paredes pelo Duque desaprovador, diz-se que vagueia pelos corredores à noite em busca do amor perdido. O palácio fica a cerca de 80 km a sul de Riga, perto da cidade de Bauska — uma popular excursão de um dia a partir da capital. A melhor época para visitar é o fim da primavera e o verão para ver os jardins em flor. O Festival do Jardim em julho é o ponto alto do ano. Recomenda-se o percurso longo para ver os aposentos da Duquesa e a Sala de Toucador com flores de porcelana. Combine a visita com o Castelo de Bauska, uma formidável fortaleza do século XV a apenas 12 km — o contraste entre o sombrio castelo medieval e o arejado palácio barroco ilustra perfeitamente a mudança dos tempos.