A Joia de Maré da Cornualha
Erguendo-se dramaticamente das águas da Baía de Mount, ao largo da costa de Marazion na Cornualha, o Monte de São Miguel é um lugar de magia, mito e história. É uma ilha de maré — uma rocha de granito coroada por uma igreja medieval e um castelo que parece saído de um conto de fadas. Durante milhares de anos, atraiu peregrinos, gigantes e soldados. Hoje atrai viajantes de todo o mundo que vêm testemunhar o milagre diário da maré que revela a antiga calçada de granito que liga a ilha ao continente.
Frequentemente confundido com o seu maior «primo» francês, o Mont Saint-Michel na Normandia, o Monte de São Miguel partilha uma forma cónica semelhante e uma história beneditina. Com efeito, durante séculos, o monte da Cornualha foi um priorado pertencente à abadia francesa. No entanto, após a dissolução dos mosteiros por Henrique VIII e a Guerra Civil Inglesa, evoluiu para uma fortaleza e, eventualmente, para uma grandiosa casa de família.
O Legado da Família St Aubyn
Desde 1650, a família St Aubyn habita o Monte. O Coronel John St Aubyn, um parlamentarista durante a Guerra Civil, foi nomeado Capitão do Monte e acabou por comprá-lo. Durante mais de 350 anos, os seus descendentes viveram entre estas paredes de pedra, transformando uma sombria fortaleza numa residência confortável (ainda que invulgar). Em 1954, o 3.º Lord St Levan cedeu a ilha ao National Trust para garantir a sua preservação, mas a família manteve um arrendamento de 999 anos para habitar o castelo. Lord St Levan e a sua família ainda lá vivem hoje, gerindo a ilha em parceria com o National Trust.
A Lenda de Cormoran, o Gigante
Antes dos cavaleiros e dos monges, o folclore diz que o Monte era a morada de Cormoran, um gigante temível. Cormoran tinha seis dedos em cada mão e seis dedos em cada pé. Aterrorizava o continente, vadeando pela água para roubar vacas e ovelhas dos agricultores para saciar o seu enorme apetite.
Numa noite de luar, um rapaz local chamado Jack nadou até à ilha. Cavou um poço fundo perto da caverna do gigante e cobriu-o com paus e palha. Ao amanhecer, Jack tocou o seu corno para despertar o gigante. Enfurecido e sonolento, Cormoran precipitou-se morro abaixo e caiu diretamente no poço. Esta façanha valeu ao rapaz o lendário título de «Jack, o Matador de Gigantes».
O Coração do Gigante
Ao subir o íngreme caminho de paralelepípedos até ao castelo, observe o chão com atenção. Encontrará uma pequena pedra em forma de coração entre as pedras de granito. A lenda diz que este é o coração de Cormoran. Diz-se que se se colocar sobre ela e escutar com atenção, ainda se pode ouvir o batimento do coração do gigante — embora os céticos possam dizer que é apenas o som das ondas.
No Interior do Castelo
A subida até ao topo é íngreme, mas os interiores do castelo valem o esforço. São uma mistura fascinante do doméstico e do monástico. A Sala Chevy Chase, o antigo refeitório dos monges, é o aposento mais espetacular do castelo. Apresenta um friso de estuque do século XVII que representa cenas de caça. A Sala de Estar Azul é um refinado salão do século XVIII com mobiliário Chippendale e decoração gótica de Strawberry Hill. A Sala dos Mapas exibe a mesa e as cadeiras usadas pela Rainha Vitória e pelo Príncipe Alberto quando visitaram o Monte sem anúncio prévio em 1846. O camareiro, perturbado pela surpresa real, só tinha um almoço simples para lhes oferecer. O Arsenal contém armas capturadas às forças de Napoleão, incluindo um pedaço do casaco do Imperador usado na Batalha de Waterloo.
Os Jardins Suspensos
Apesar de fustigados pela névoa salina e pelas tempestades do Atlântico, os jardins do Monte de São Miguel são um milagre botânico. Prosperam graças ao «efeito da Corrente do Golfo» — correntes oceânicas quentes que criam um microclima isento de geadas. A rocha de granito absorve calor durante o dia e liberta-o à noite. Criar um jardim numa encosta vertical é um desporto extremo: os jardineiros têm de descer a rocha em rappel para desbastar os terraços! Encontrar-se-ão aloe, agave, lavanda e outras plantas mediterrânicas agarradas à falésia. O Jardim Murado, originalmente a horta dos monges, floresce hoje com cores vivas.
Informações para Visitantes
Visitar o Monte requer verificar as horas das marés, que mudam diariamente. Com a maré baixa, é possível atravessar a antiga calçada de granito a partir da praia de Marazion. A travessia demora cerca de 10-15 minutos. Os paralelepípedos podem estar molhados e irregulares, pelo que se recomenda calçado adequado. Com a maré cheia, quando a água cobre a calçada, é necessário apanhar um barco — pequenas lanchas fazem a travessia por uma pequena taxa, o que acrescenta uma sensação de aventura à chegada. A ilha tem uma pequena aldeia na sua base com um porto, um café e lojas. O caminho até ao castelo é íngreme, irregular e empedrado, não sendo adequado para cadeiras de rodas ou carrinhos de bebé. Existe uma «Cadeira de Cume» para pessoas com mobilidade reduzida, mas deve ser reservada com semanas de antecedência.
O Monte e o Mar: Uma Relação de Séculos
Durante milénios, o Monte de São Miguel foi um ponto de referência para os navegadores e pescadores da Cornualha. A sua posição proeminente na Baía de Mount tornava-o num farol natural para os barcos que percorriam a costa sul de Inglaterra. Na Idade Média, o prior do mosteiro mantinha uma luz permanente no alto da torre da igreja, uma das primeiras ajudas à navegação da Grã-Bretanha. Esta íntima relação com o mar moldou profundamente o caráter do Monte: as suas muralhas são literalmente feitas de granito que foi moldado pelas marés durante eras geológicas, e os seus jardins crescem graças às correntes oceânicas quentes que banhiam a costa da Cornualha. Visitar o Monte é, em última análise, compreender a profundidade da ligação humana ao mar — uma ligação que perdura desde a pré-história até aos dias de hoje.
Uma Casa Habitada por uma Família Real
O aspeto mais extraordinário do Monte de São Miguel é o facto de ser uma casa real habitada por uma família real — não pela família real britânica, mas pela família St Aubyn, cujas raízes na ilha remontam a quase quatro séculos. Esta continuidade humana confere ao lugar uma autenticidade que muitos monumentos históricos perderam. Os visitantes que chegam durante as horas de abertura podem ter a sorte de cruzar Lord St Levan no jardim ou ver janelas abertas na ala privada do castelo — lembretes de que a história não é algo estático e fossilizado, mas uma herança viva que pessoas reais continuam a habitar, adaptar e preservar para as gerações que ainda hão de vir.