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Château du Haut-Kœnigsbourg

Château du Haut-Kœnigsbourg

📍 Orschwiller, Alsácia, França 📅 Construído em Século XII (Restaurado 1900–1908)

O Gigante Vermelho da Alsácia

Emergindo das densas florestas escuras dos Vosges como um titã de arenito vermelho, o Château du Haut-Kœnigsbourg é um dos monumentos mais visitados de França. A uma altitude de 757 metros, domina a paisagem com uma vista soberba que se estende pela planície do Reno até à Floresta Negra na Alemanha e, num dia limpo, até aos Alpes suíços. A sua silhueta — uma linha irregular de torres, baluartes e telhados de ardósia íngremes — é imediatamente reconhecível. É um exemplo de manual de uma fortaleza medieval de montanha, projetada para ver e ser vista, para intimidar e proteger.

Contudo, Haut-Kœnigsbourg não é apenas uma relíquia da Idade Média. É também um monumento à história complexa e frequentemente dolorosa da Alsácia, uma região que oscilou entre França e Alemanha durante séculos. O castelo que hoje vemos é em grande parte uma reconstrução do início do século XX, um projeto impulsionado pelo Imperador alemão Guilherme II para legitimar o seu domínio sobre o território. É um lugar onde a pedra medieval se encontra com a ambição política moderna. A estrutura em si conta a história deste braço de ferro, com flores de liz francesas e águias alemãs muitas vezes lado a lado.

História: Das Ruínas à Ressurreição

O sítio está ocupado desde a época romana, mas a primeira menção a um castelo data do século XII. Foi construído pela dinastia dos Hohenstaufen para vigiar as rotas comerciais estratégicas de sal, vinho, prata e trigo que atravessavam a região. Durante séculos, foi um prémio disputado por duques, bispos e barões salteadores — os Tierstein — que o usavam como base para assaltar comerciantes que passavam.

O declínio começou no século XVII. Durante a Guerra dos Trinta Anos, o castelo foi sitiado por tropas suecas em 1633. Após resistir durante 52 dias, a guarnição faminta capitulou. Os suecos saquearam o castelo e incendiaram-no. Durante os dois séculos e meio seguintes, o «Castelo do Rei Alto» (tradução literal do nome) ficou em ruínas, reconquistado pela floresta, um local romântico para caminheiros e poetas que admiravam a sua beleza melancólica.

O ponto de viragem chegou em 1871, quando a Alsácia foi anexada pelo recém-formado Império Alemão. As ruínas foram oferecidas ao Kaiser Guilherme II em 1899 pela cidade de Sélestat. O Imperador viu uma oportunidade. Quis criar um símbolo do glorioso passado alemão e da permanência do domínio alemão na Alsácia. Encomendou ao arquiteto Bodo Ebhardt, especialista em fortificações medievais, a restauração do castelo ao seu estado anterior a 1633.

A restauração (1900–1908) foi monumental. Usando tecnologia moderna (máquinas a vapor, eletricidade) disfarçada de artesanato medieval, Ebhardt reconstruiu as muralhas, torres e interiores. Embora os críticos da época o ridicularizassem como uma fantasia «kitsch», os historiadores modernos elogiam a abordagem científica de Ebhardt. Baseou o seu trabalho em evidências arqueológicas e registos de arquivo, embora tenha acrescentado alguns floreados românticos (como a altura da torre de menagem) para agradar ao Imperador.

Arquitetura: Uma Lição de Defesa

Uma visita a Haut-Kœnigsbourg é uma viagem por um sistema defensivo medieval completo. O castelo divide-se em três secções: o Jardim Inferior, a Barbacã e o Castelo Alto (Recinto Superior).

O Grande Baluarte

A característica mais imponente é o Grande Baluarte no lado ocidental. Como este era o ponto mais vulnerável (voltado para o declive da montanha), foi fortemente reforçado. É uma enorme plataforma de artilharia com paredes até nove metros de espessura, projetada para resistir a tiros de canhão. Oferece as melhores vistas da área circundante e foi concebida para albergar peças de artilharia pesada.

O Recinto Superior

A parte residencial do castelo é um labirinto de escadarias em espiral, galerias de madeira e salões de pedra. A arquitetura é uma mistura de estilos românico e gótico. A restauração incluiu cada detalhe, desde as maçanetas de ferro forjado das portas até os fogões de azulejos (Kachelofen) que aqueciam os quartos. O Pátio Interior é particularmente atmosférico, com o seu poço coberto, galerias de estrutura de madeira e a alta torre de escadas hexagonal.

A Sala do Kaiser

A Sala do Kaiser é a peça central do interior. Está decorada com afrescos da Águia Imperial e os brasões do Sacro Império Romano-Germânico — uma declaração política clara de Guilherme II, que vinculava o seu Segundo Reich ao Primeiro Reich. O teto está adornado com uma enorme águia com o lema «Gott mit uns» («Deus connosco»). Foi concebida como sala de banquetes para as visitas do Imperador, embora ele raramente ficasse aqui.

A Alsácia entre Dois Mundos

Não se pode visitar Haut-Kœnigsbourg sem refletir sobre o destino singular da Alsácia. Esta região passou de mão em mão entre França e Alemanha quatro vezes em menos de um século (1871, 1918, 1940, 1944). O castelo é uma metáfora em pedra dessa divisão: construído pela Alemanha para afirmar o seu poder, devolvido a França após a Primeira Guerra Mundial, ocupado novamente pelos alemães na Segunda, e hoje um Património Mundial da UNESCO que celebra a riqueza mista da cultura alsaciana — um povo que fala alsaciano (dialeto germânico), come choucroute e bebe Riesling, mas vibra ao Hino Nacional francês. A coexistência de símbolos franceses e alemães nos seus corredores não é uma contradição — é a essência da Alsácia.

As Lendas do Castelo

Como qualquer castelo que se preze, Haut-Kœnigsbourg tem as suas lendas. Uma fala de uma «Dama Branca» ou enfermeira fantasma que vagueia pelas ameias à noite. Diz-se que é o espírito de uma mulher que tentou salvar o filho doente durante o cerco sueco, mas falhou por falta de comida e medicamentos. O seu choro pressagiaria uma tempestade ou uma catástrofe iminente.

Outra lenda diz respeito ao poço do castelo, com 62 metros de profundidade. Diz-se que um túnel secreto conduz do fundo do poço até à aldeia em baixo, permitindo que os senhores escapassem ou que os contrabandistas trouxessem mantimentos durante um cerco. Embora nenhum tal túnel tenha sido encontrado, o próprio poço é uma maravilha de engenharia, escavado em granito sólido.

Informações Práticas

Como Chegar

O castelo fica em Orschwiller, a cerca de 26 km a norte de Colmar e 55 km a sul de Estrasburgo. É uma excursão de um dia popular a partir de ambas as cidades. Um autocarro-shuttle (Navette du Haut-Kœnigsbourg) circula a partir da estação de comboios de Sélestat até ao castelo, conveniente para quem não tem carro. Se conduzir, prepare-se para uma estrada de montanha sinuosa e parques de estacionamento muito movimentados no verão.

Visita

O castelo está aberto todo o ano, exceto 1 de janeiro, 1 de maio e 25 de dezembro. As visitas guiadas autónomas são a norma, com folhetos disponíveis em muitas línguas. Os guias áudio são altamente recomendados para compreender as nuances da restauração. A visita implica muito caminhar e subir escadas, pelo que calçado confortável é essencial. As vistas a partir do Grande Baluarte são algumas das melhores da Alsácia.

O Jardim Medieval

Mesmo fora das muralhas existe um jardim medieval recriado. Cultiva plantas que eram usadas na Idade Média para medicina, tingir tecidos e cozinhar. É um lugar tranquilo para descansar depois de explorar o gigante marcial de pedra, e oferece um contraponto perfumado às frias paredes de pedra.